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Bambu

O fim da breve "Era do Carbono Volátil"

15/03/2017
Por Guilherme Korte, jornalista

O ceramista percebera a possível falta de biomassa para tocar seus fornos. O novo século já com sete anos corridos. A região uma grande produtora de blocos cerâmicos e telhas para construção civil. O Brasil em pleno vapor. Dr. José, então, experiente no setor, vanguarda ideológica e empresarial busca uma fonte que não o eucalipto para garantir sua produção, ou parte dela, no pé dos fornos. Comprou cem hectares na frente da Cerâmica Modelo. Plantou Bambu e Teka. Meia década passou e já havia cortado duas vezes. Penou na escolha do picador. Fez e refez algumas vezes o sistema de facas, a angulação, o rotor, as correias, quase uma nova máquina. “Fiz outra”, afirma! Sua primeira viagem ao exterior, depois de 70 anos vividos, nos diversos Brasis, embarcou numa missão oficial brasileira à China, para conhecer o potencial do Bambu. Impressionado, voltou. O mundo bambuzeiro era muito maior que imaginava. Seus 100 hectares de Bambusa vulgaris com grande potencial calorífico, excelente para papel, celulose, construção civil e outras centenas de usos, hoje busca um processo agroindustrial para elevar o valor agregado da sua floresta. Cortava raso, deixava secar 15 a 20 dias, assim que caíssem as folhas, picava e queimava. Uma gasolina para o mix dos fornos. Os chineses ao ouvirem que cortava raso o bambual, espantaram-se. “Não faça isso!!! Desperdício!!!” - o Dr. Fu Jinhe, um dos especialistas-chefes da Rede Internacional de Bambu e Rattan, www.inbar.int com sede em Beijing - o recomendou a cortar somente os colmos maduros. Mais densos, secos, com maior potencial para gerar energia. O rendimento foi 35% maior na geração de calor. A falta de biomassa não foi como pensava, mas outra pior assolou o setor. Dr. Gonçalves é apaixonado pela cultura, em sua residência não faltam objetos de bambu. “Primeiro fica simpatizante, depois amigo, depois amante e o casamento com a cultura é fantástica. Quanto maior o manejo, melhor ele produz! - exclama animado, o advogado, nas margens do Rio Grande, em Panorama, do lado paulista.

Na Secretaria da Agricultura e Abastecimento de São Paulo os dirigentes conhecem bambu desde criança. Entre cercas, pipas, balaios, os pipocos nas fogueiras de São João e recentemente, as tábuas de carne, as camisetas, peças íntimas femininas, caixas de som, computadores, pisos e vigas em bambu chamaram a atenção. O secretário Arnaldo Jardim e sua equipe está criando políticas públicas para o desenvolvimento da cultura no Estado. Uma das áreas com a maior coleção de bambus do Brasil, foi transformada na Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento do Agronegócio do Bambu, localizado no município de Tatui. Seu diretor, o Dr. Marcelo Ticelli, tem recebido diariamente interessados sobre o plantio, a transformação e a aplicação desta fibra.

O Brasil chama a atenção quando se fala em terra. Em produção de fibras, alimentos, biomassa. O mercado internacional é comprador de Biochar de Bambu. De carvão ativado de Bambu. De ripas de Bambu. De Colmos de Bambu. De fibras de Bambu. Uma pequena unidade de processamento precisa de 300 hectares de bambuais, segundo Marcelo Villegas, colombiano, um dos ícones mundiais do vegetal. O Acre possui as maiores reservas de Bambu do mundo. A Embrapa regional coordena o estudo da planta. Dr. Eufran Amaral realiza arranjos de agroflorestas produtivas incluindo bambu para os micro e pequenos proprietários da Amazonia. Ao juntar a seringueira, o açaí, a taboca, a banana, o cacau, a Castanheira em uma só área, o produtor torna-se sustentável, o meio ambiente recuperado e a economia do estado do Acre será reforçada em grande escala, disse Amaral. O pesquisador e atual Diretor para o Acre, estima que o PIB do estado pode dobrar em 10 anos, somente com o aproveitamento do bambu existente, com manejo sustentável. A Universidade Mackenzie realizou no segundo semestre de 2016 um evento no Dia Mundial do Bambu, onde mais de 6 mil alunos lotaram os 7 auditórios para ouvir de 15 palestrantes sobre os mais diversos usos, desde brotos, pisos, cosméticos, vigas, biomassa, energia, filtragem de água, contenção de erosão, fibras entre outros. E o que mais impressionou os palestrante, vindos de diversos estados, entre eles o Prof. Normando Perazzo, Doutor em Estruturas pela Universidade Pierre Et Marie Curie, Paris, França, especialista em bambu, foi que o Departamento de Engenharia da Universidade Mackenzie, completando os 120 anos de tradição, assimilou a importância desde vegetal na construção sustentável, a tendência do século 21. “Uma atitude de vanguarda para uma universidade tradicional como o Mackenzie”, afirmou Perazzo. Hoje coordenador da Rede Brasileira do Bambu, com apoio da APROBAMBU - associação dos produtores brasileiros desta fibra, deu entrada na ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas - para termos no Brasil, seguindo diversos países no mundo, normas para construção de casas e edifícios com bambu in natura e suas fibras, transformadas em produtos engenheirados. Uma cidade de 50 mil habitantes com mil hectares de bambu plantado em seu entorno pode ter parte de seu mercado de vigas, ripas e pisos abastecida por uma agroindústria local, gerando renda aos mais diversos setores, no entorno do bambual. Entre as universidades que abraçaram a causa, está a Universidade Estadual Paulista, de Bauru, Itapeva e Botucatu. Destaque para o primeiro livre docente em bambu no Brasil, Dr. Marcos Pereira, apaixonado pela fibra, disseminou e provocou alunos de norte a sul do pais com suas palestras e cursos, ao longo dos últimos 30 anos com o tema. Ainda não foi criado uma cadeira acadêmica específica para o tema. Somente São Paulo possui mais de 500 mil hectares abandonados pelo setor sucroalcooleiro. Um parque industrial pode ser formado aos moldes chineses ou indianos, com milhares de empregos, empresas e gerando renda ao sistema produtivo no campo. Bilhões de reais podem circular advindo desta conhecida planta de todo micro, pequeno, médio e grande roceiro do pais. O governo brasileiro em seu compromisso para cumprir as metas do Acordo de Paris, firmado em dezembro de 2015, estabeleceu em 12 milhões de hectares a meta para recuperação. O movimento multisetorial Coalisão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura acompanha de perto o projeto, discutindo com todos os setores ligados ao agronegócio, meio ambiente e mudanças climáticas, academias e industria, segue empenhado na árdua tarefa de interlocutor das diferenças de entendimento sobre progresso, qualidade de vida e sustentabilidade do planeta. A Coalisão, registrada em 2015, pauta 17 propostas concretas quando prioriza a redução da emissão de Gases do Efeito Estufa GEE e a Economia de Baixo Carbono. A busca de um denominador comum para a elaboração de políticas econômicas que transformem o Brasil no modelo de prosperidade e qualidade de vida sustentável com emprego e renda aos seus habitantes, quebra o gelo dos participantes e provoca um "pensamento comum" relativamente homogêneo - Plantar florestas. Florestas consorciadas com pecuária, lavoura, arbóreas, palmáceas e certamente o bambu. Com seu conhecido potencial para vencer as gramínea rasteiras, como a brachiária, formar em pouco tempo um ambiente propício ao crescimento de arbóreas e palmáceas de médio e longo prazo, com sombra e conforto térmico, favorece à pecuária, à lavoura e às frutíferas das mais variadas espécies. No subsolo, as raizes em camadas distintas são complementares e não disputam o mesmo alimento. Na atmosfera a busca pelo sol, as torna mais competitivas e saudáveis. O conceito de Paisagem Sustentável, onde áreas hoje destinadas a arborização, paisagismo, margens de rodovias, ferrovias, hidrovias podem ser preenchidas com espécies de grande, médio e pequeno porte que gerem renda. Estas agregam valor ambiental, social e econômico ao serem cuidadas pelo cidadão que circula em suas sombras. Uma teoria antiga. Antes inserida na genética humana de conservar o entorno produtivo vivo, o bioma, por algum lapso do Homo sapiens, ficou à margem da ciência, da indústria e da economia. A oportunidade entre o fim da Era do Carbono Volátil e o início da Era do Carbono Fixo é das maiores que o mundo jå presenciou nestes últimos cinco milênios. Plantar para uma colher de qualidade de vida aos nossos netos.   ´