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Floresta Nativa

A Arca de Noéucalipto - as plantações florestais e a proteção da biodiversidade

17/06/2015
Disse o Senhor a Noé: vá, construa uma arca e leve sua família e um casal de cada exemplar de ser vivo... Gênesis 6

Em visita a uma indústria de chapas de madeira, chamou atenção um quadro exposto na recepção. Tratava-se do Carômetro, um tipo de mapa da fauna nas propriedades florestais da empresa. A cara mais marcante foi a da onça. Questionado ao gerente se algum funcionário já viu tal felino, ele respondeu: “Era intervalo de almoço quando um tratorista foi fazer o quimo e se deparou com pegadas as quais seguiu o rastro. De repente, deu-se de frente com uma onça parda deitada num carreador que divide as plantações florestais com a APP”.

Este testemunho tem sido rotineiro nas propriedades florestais e registrado nos licenciamentos ambientais pelas câmeras armadilhas. Além disso, ele contrasta com paradigmas criados por ONGs de que as plantações florestais são “desertos verdes”. Considerando que onde há predador, há presa, pode-se afirmar que, embora a plantação não tenha tanta riqueza de fauna, já na propriedade florestal acontece o oposto.
Em que pese na Austrália o coala alimentar-se do eucalipto, no Brasil, mesmo que uma ou outra espécie alimente-se parcialmente dele, ou de pinus, ou de outra árvore sob monocultivo, é pretensioso afirmar que estas plantações sustentam uma biodiversidade assim como a floresta nativa. Tal é falso afirmar sê-las um “deserto verde”.

Nada substitui a função ambiental das florestas nativas, sobretudo no tocante ao abrigo e alimentação, entretanto, somente este papel ambiental não foi e nunca será suficiente para mantê-las de pé. Foi justamente a ausência de riqueza socioeconômica que fez com que fossem convertidas em pastagens e culturas. Por outro lado, com exceção das empresas (mineradoras) obrigadas à compensação, dificilmente um produtor plantaria floresta por altruísmo, seja para restauração ou para um parque zoológico. Ele planta para obter lucro, “cascaio”, da mesma forma que se planta arroz, feijão entre outros para adquirir renda. Plantio florestal é como qualquer outro. Não é reflorestamento, é cultura.

Assim, embora um povoamento florestal não tenha as características da floresta nativa, há que se questionar o porquê do reaparecimento de uma diversidade faunística nas propriedades florestais ao revés das agrícolas. Para isto, é preciso saber a razão do sumiço dela. Os fatos que levaram ao desaparecimento de muitas espécies da fauna brasileira, sobretudo a mastofauna, estão relacionados com a forma desordenada e arbitrária de ocupação das terras e à necessidade de proteína a baixo custo, via caça, para a expressiva população rural até a década de 1970.

As culturas de cana de açúcar, café e a pecuária desmataram a Mata Atlântica. Para agravar, a partir de 1970, à medida que aumentava a decadência da agropecuária, mais os produtores desmatavam para atingir o status quo e sobreviverem, até que não havia mais o que desmatar e nem renda para melhorar as pastagens. Com o fim da Mata Atlântica, veio o holocausto faunístico. Lamentavelmente, nestas propriedades, nem área de preservação permanente (APP) de curso d´água e de nascentes são respeitadas. Nelas não se vê bicho, inclusive, de forma tragicômica, nem boi.

Neste cenário catastrófico de pastagens degradadas ocupando 100% da área da propriedade é que se tem plantado florestas. Apesar de muito desdém, as plantações florestais não ocupam sequer 1% do território brasileiro e, provavelmente, menos da metade desta área tenha sido plantada sobre desmatamentos.

Em geral, evita-se plantar árvores comerciais ao longo do curso d´água – para não colher toras dentro dele – e ao redor de nascentes, pois estas, em franco crescimento, absorvem muita água. Assim, nestas APPs, tem-se a regeneração. Além disso, comumente, os plantadores de floresta ressalvam a Reserva Legal (RL), como exige a lei.

Neste panorama, sem dúvida, as plantações desempenham um papel importante para a fauna. Não como fonte de alimentos, mas de abrigo. Defender que as plantações florestais abrigam a fauna como uma floresta nativa é tão estúpido quanto esperar delas o mesmo papel das nativas. Mas é inconteste que as plantações florestais são melhores que outras. Não são as plantações florestais responsáveis diretamente pela resiliência da fauna, mas, sim, por todo um contexto em torno delas.

Por ser uma cultura de longo prazo, elevado investimento inicial e alto risco, susceptível a incêndios e depredações, o proprietário tem que proteger o plantio florestal. Isto significa controlar o fluxo de pessoal, proibir a entrada de caçadores na área e monitorar o risco de fogo. Durante a fase de manutenção florestal, a área vira um refúgio em virtude da baixa movimentação de máquinas e pessoal. À medida que os plantios e as colheitas são escalonados de acordo com a rotação (em geral sete anos) têm-se a formação de um mosaico na propriedade, constituído de plantação florestal nas distintas idades, RL, APP, remanescentes de vegetação nativa e outras culturas, normalmente pastagens. Esta diversidade de ambiente cria condições aprazíveis para a biodiversidade.

Outro benefício das plantações florestais para a fauna é a presença do subosque. É fato que quem planta árvores não visa manter subosque sob a plantação, mas este ocorre naturalmente, até porque é inviável ter o plantio livre de competição. Assim, quanto maior a pluviosidade da região, mais subosque haverá.

Para corroborar com o papel protetivo das plantações florestais para a bicharada, tem-se a redução da caça. Com o aumento da urbanização e da renda das famílias, facilitou-se o acesso à carne nos açougues de forma mais barata e cômoda que pela caça.

São as árvores contribuindo, historicamente, para a proteção da fauna. Seja com a madeira na construção da Arca de Noé, seja, atualmente, com as plantações florestais criando um ambiente seguro para o fluxo gênico da fauna por meio das áreas protegidas no seu entorno e do seu subosque. Se na história Noé empregou madeira de nativa sem autorização do IBAMA, atualmente ele nem precisa temer a Lei 9605/98 e nem ter o trabalho de levar consigo a fauna, pois tem à sua disposição as plantações florestais.

Fonte: www.celuloseonline.com.br