Fonte: Perfil News
No Dia da Árvore, Três Lagoas olha para o eucalipto, mas também para ipês, jatobás, mangueiras e tantas outras espécies que ajudam a contar a história de uma cidade que cresceu entre árvores
Há cidades que desenvolvem uma relação especial com determinadas árvores. Em Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul, uma delas ganhou uma importância que ultrapassa a paisagem: o eucalipto.
Neste Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, a espécie pode ser lembrada não apenas por sua presença no campo, mas como parte de uma transformação econômica que mudou a história recente de Três Lagoas e de toda a região da Costa Leste.
O eucalipto passou a ocupar grandes áreas do território e tornou-se a principal matéria-prima de uma cadeia industrial que envolve produção de mudas, plantio, manejo, colheita, transporte, fabricação de celulose, logística, exportação e geração de energia.
Em Três Lagoas, duas gigantes do setor de celulose mantêm operações diretamente ligadas às florestas plantadas. A Eldorado Brasil, por exemplo, possui áreas de cultivo de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul e fábrica instalada no município. A empresa informa manter 309 mil hectares de florestas plantadas no Estado, além de aproveitar resíduos da própria cadeia produtiva para a geração de energia renovável.
A Suzano também mantém uma expressiva operação florestal e industrial em Três Lagoas. Segundo dados divulgados pela companhia, a unidade possui capacidade para produzir 3,25 milhões de toneladas de celulose por ano.
É uma cadeia que fez a madeira deixar de ser apenas matéria-prima. Em torno dela passaram a girar empregos, renda, investimentos, circulação de mercadorias, arrecadação e novas oportunidades para empresas e trabalhadores.
QUANDO A FLORESTA VIROU INDÚSTRIA
A transformação econômica de Três Lagoas não aconteceu de um dia para o outro. Antes da expansão da indústria de celulose, grandes extensões da região eram ocupadas principalmente por propriedades rurais e pastagens.
O avanço das florestas plantadas mudou parte dessa paisagem.
Hoje, quem percorre as rodovias da região encontra extensos corredores de eucalipto. O cenário verde, aparentemente simples, esconde uma cadeia produtiva altamente tecnológica.
A Eldorado informa utilizar colheita mecanizada, drones, imagens de satélite e sistemas de sensoriamento remoto no manejo de suas florestas. A empresa também afirma manter áreas plantadas certificadas e monitoradas.
A Suzano, por sua vez, informa adotar o chamado plantio em mosaico, no qual áreas destinadas à produção são intercaladas com espaços de conservação da vegetação nativa.
Por trás de cada árvore que cresce silenciosamente no campo existe, portanto, uma engrenagem que reúne tecnologia, trabalhadores, máquinas, caminhões, ferrovias, fábricas e portos.
EUCALIPTO E ÁGUA: UM DEBATE QUE ATRAVESSA GERAÇÕES
Apesar da importância econômica, o eucalipto ainda desperta questionamentos. Um dos mais conhecidos está relacionado à ideia, difundida ao longo dos anos, de que a espécie necessariamente seca o solo.
A relação entre florestas plantadas, água e recursos naturais, no entanto, é mais complexa. Os impactos dependem de fatores como espécie cultivada, clima, características do solo, manejo, espaçamento, idade da floresta, disponibilidade hídrica e condições da paisagem.
Por isso, a discussão ambiental não pode ser resumida simplesmente a ser contra ou a favor do eucalipto.
O desafio está em conciliar produção e responsabilidade ambiental, com manejo adequado, proteção dos recursos hídricos, conservação de áreas nativas e cumprimento da legislação.
A expansão do setor em Mato Grosso do Sul também veio acompanhada de sistemas de monitoramento, certificações e novas tecnologias. A Eldorado, por exemplo, informa que suas áreas plantadas possuem certificações FSC e PEFC.
DA MADEIRA À ENERGIA
Em Três Lagoas, até aquilo que poderia ser tratado como sobra da árvore passou a ter utilidade.
Tocos, raízes, cascas e outros materiais provenientes da cadeia do eucalipto podem ser transformados em biomassa e utilizados para produzir energia.
A Usina Termelétrica Onça Pintada, da Eldorado Brasil, entrou em operação em 2021 utilizando biomassa formada por tocos, raízes e madeira sem aproveitamento industrial. Segundo a empresa, parte da energia gerada é destinada ao sistema elétrico nacional.
Na Suzano, resíduos como cascas e outros materiais da produção também são aproveitados na matriz energética da companhia.
Assim, a árvore plantada no campo pode terminar sua jornada como celulose, papel, embalagem, energia e diversos outros produtos. Entre uma ponta e outra, movimenta caminhões, oficinas, transportadoras, prestadores de serviços, comércio e milhares de trabalhadores.
MAS TRÊS LAGOAS NÃO É SÓ EUCALIPTO
Falar sobre árvores em Três Lagoas também exige voltar os olhos para dentro da cidade.
São os ipês que, durante a floração, pintam ruas e avenidas de amarelo, rosa e branco. São os jatobás que carregam histórias. São as mangueiras que oferecem sombra, frutos e lembranças. E são tantas outras espécies que ajudam a amenizar o calor, abrigam pássaros e fazem parte da memória dos moradores.
A Lagoa Maior é um dos lugares onde essa relação entre cidade e arborização se torna mais evidente.
Ao longo dos anos, o local recebeu ações de plantio durante as comemorações do Dia da Árvore. Em 2011, por exemplo, 60 mudas foram plantadas na Lagoa Maior.
Mas plantar é apenas parte da responsabilidade.
A arborização urbana também exige acompanhamento. Uma árvore antiga não é, necessariamente, uma árvore perigosa. Porém, exemplares doentes, com estruturas comprometidas, raízes danificadas ou infestações podem representar riscos, principalmente durante temporais e fortes rajadas de vento.
Por isso, avaliar, tratar e acompanhar as árvores existentes nos espaços públicos é tão importante quanto plantar novas mudas.
O JATOBÁ QUE SE TRANSFORMOU EM MEMÓRIA
Três Lagoas também tem suas árvores-símbolo.
Durante décadas, um antigo jatobá, conhecido como Jatobasão, foi referência para os moradores. Centenária, a árvore acabou tendo sua estrutura comprometida e precisou ser retirada.
Mas sua história não terminou quando o tronco caiu.
Durante a primeira gestão do então prefeito Ângelo Guerreiro, uma nova muda de jatobá foi plantada no mesmo local onde permanecera a árvore que marcou gerações.
Um gesto aparentemente simples, mas carregado de simbolismo.
Quando uma árvore cai, outra pode ocupar seu lugar. Não para apagar o passado, mas para permitir que a história continue crescendo.
ENTRE O PASSADO E O FUTURO
Três Lagoas mudou.
Onde antes predominavam grandes áreas de pastagens, hoje também se estendem imensas florestas plantadas. Ao lado de uma economia historicamente ligada à pecuária, consolidou-se um gigantesco complexo industrial associado à produção de celulose.
O eucalipto não explica sozinho o crescimento do município, mas tornou-se uma das peças centrais dessa transformação.
A cadeia florestal ajudou a inserir Três Lagoas no mapa mundial da produção de celulose e criou uma conexão que começa em uma pequena muda plantada no solo sul-mato-grossense e termina em produtos consumidos a milhares de quilômetros dali.
Talvez seja justamente essa uma das maneiras de compreender o Dia da Árvore em Três Lagoas: perceber que cada árvore pode carregar uma história diferente.
Há a árvore que vira celulose.
Há a que se transforma em energia.
Há aquela que protege do sol.
A que oferece frutos.
A que marca uma infância, uma rua, uma praça ou uma geração inteira.
E há aquela que, mesmo depois de cair, deixa outra muda em seu lugar para lembrar que uma cidade também pode crescer plantando o futuro.
CRESCER SEM ESQUECER AS RAÍZES
Em Três Lagoas, a árvore deixou de ser apenas parte da paisagem. Para milhares de pessoas, passou também a representar trabalho, indústria, renda e desenvolvimento.
Mas, entre ruas, praças, quintais e áreas de cerrado, permanece um lembrete essencial: nenhuma floresta plantada substitui a importância de preservar a vegetação nativa e cuidar da arborização urbana.
Desenvolver também significa conservar. Plantar exige cuidar. E crescer pressupõe compreender o valor daquilo que já estava ali antes de nós.
No fim, talvez seja esse o significado mais profundo do Dia da Árvore para uma cidade que transformou a floresta em parte de sua economia sem deixar de guardar árvores em sua memória:
crescer, sim — mas sem esquecer de criar e preservar raízes.





