Etanol de milho multiplica demanda por biomassa e acirra disputa florestal

Artigo por Marcelo Schmid. CSO do Grupo Index

A fabricação nacional de etanol derivado do milho atravessa uma forte expansão. Em um intervalo de apenas seis anos, o volume saltou de 0,8 bilhão de litros no ciclo 2018/19 para a marca expressiva de 8,2 bilhões de litros previstos para 2024/25 — um crescimento de dez vezes. Contudo, essa trajetória impõe um desafio logístico distinto da cana-de-açúcar: enquanto esta utiliza o bagaço para autossuficiência energética, o processamento do milho não gera resíduos para as caldeiras, exigindo obrigatoriamente o aporte de biomassa externa.

A inauguração de cada unidade industrial provoca aumento imediato e substancial na procura por biomassa. No Mato Grosso, epicentro desse setor, a demanda de biomassa pelas usinas mais que dobrou entre 2021 e 2024, atingindo 7,4 milhões de metros cúbicos. O entrave reside no descompasso temporal: enquanto a demanda surge instantaneamente, a oferta de florestas plantadas, como o eucalipto, demanda um ciclo médio de seis anos para atingir o ponto de colheita.

Apesar da força no Centro-Oeste, a expansão da indústria do etanol de milho tem alcançado estados de tradicional mercado florestal, acirrando a disputa pela matéria-prima. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, onde já existem três usinas, a presença robusta das gigantes de celulose, restringe a disponibilidade de biomassa para a produção do biocombustivel. Já o Paraná, com um parque industrial de madeira diversificado (celulose, painéis e serraria), opera uma usina e possui outras duas em fase de projeto/execução.

Nesses cenários, a alta competitividade inflaciona os preços, forçando as empresas a uma escolha estratégica complexa: absorver os custos elevados do mercado spot ou investir na verticalização da produção florestal, o que exige foco em uma atividade que foge ao core business da produção de biocombustíveis.