Audiência popular em Porto Alegre debaterá ampliação da CMPC

Fonte: Extra Classe

Projeto bilionário prevê alto consumo de água. Ambientalistas questionam capacidade de assimilação do sistema hídrico e possíveis impactos.

Uma audiência popular na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre que será realizada nesta terça-feira, 7, a partir das 18 horas, promete aquecer os debates sobre o que vem sendo considerado o maior investimento privado na história do Rio Grande do Sul.

A ampliação da Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC), apesar das promessas de ser uma referência em tecnologia limpa e controle de emissões, acende o sinal de alerta de pessoas preocupadas com a possibilidade de que possa promover mais uma tragédia ambiental no estado.

O projeto, que inclui a modernização da unidade da CMPC já existente em Guaíba e a construção de uma nova planta em Barra do Ribeiro, pode transformar o complexo da multinacional chilena do setor de papel e celulose em um dos maiores do mundo na produção de celulose, com capacidade estimada de 2,5 milhões de toneladas por ano e aporte de até R$ 27 bilhões.

Se o porte do empreendimento é parte do argumento do governo e do setor empresarial, de outro lado, ambientalistas apontam riscos proporcionais à escala.

A pergunta que será feita na audiência popular nesta terça-feira é: a expectativa da geração de até 12 mil empregos na fase de obras, cerca de 1,5 mil postos permanentes e impactos positivos em infraestrutura, como melhorias logísticas e portuárias, compensaria os possíveis impactos socioambientais?

Água no foco

O uso intensivo da água do Guaíba é um dos principais focos de preocupação. A ampliação da CMPC poderá captar cerca de 288 milhões de litros por dia. O volume é superior ao consumo de toda a população da capital.

Já o lançamento de efluentes no Guaíba, por sua vez, levanta dúvidas de especialistas sobre a capacidade de assimilação do sistema hídrico e possíveis impactos na qualidade da água destinada ao abastecimento público, inclusive em áreas próximas a captações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae).

Há ainda alertas sobre a presença de compostos potencialmente tóxicos, como dioxinas e furanos, além do aumento de nutrientes que podem estimular florações de cianobactérias — fenômeno já associado a episódios de gosto e odor na água. Intervenções como dragagens também preocupam pela possibilidade de remobilizar metais pesados no leito do lago.

Os efeitos sociais entram no mesmo pacote de incertezas. A ampliação pode atingir pescadores artesanais no Guaíba e na Laguna dos Patos, além de comunidades tradicionais e indígenas.

MPF recomenda suspensão

Na semana passada, o debate ganhou um novo capítulo. O Ministério Público Federal (MPF) recomendou a suspensão do licenciamento ambiental da nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro.

O MPF argumenta que houve ausência de consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas Guarani Mbyá. A consulta prévia à povos originários é preconizada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além da elaboração de estudos complementares sobre os impactos da silvicultura e do uso de agrotóxicos na região.

A audiência popular sobre a ampliação da CMPC no estado acontece no plenário Ana Terra, da Câmara de Porto Alegre. Ela é uma iniciativa dos vereadores Alexandre Bublitz (PT) e Paulo Brack (PSol). Segundo os organizadores, a multinacional foi convidada e até o momento não confirmou presença.