Sebastião Renato Valverde[1], Aléxia Penna Barbosa Diniz[2] e Vinícius Pinto Aguiar[3]
A Zona da Mata Mineira (ZMM), outrora uma das regiões mais prósperas do país, desde a década de 1980 enfrenta dificuldades socioeconômicas. Embora tenha desempenhado papel importante na industrialização brasileira, com destaque para as cidades de Juiz de Fora e Cataguases, a região tem convivido com a perda de dinamismo econômico, a migração de parte da população economicamente ativa (PEA) e desafios ambientais decorrentes da ocupação histórica. No meio rural, com a predominância de uma agricultura de subsistência em estágio terminal à base de morfina, distante da adequação às exigências do Novo Código Florestal, mesmo perante suas Disposições Transitórias que flexibilizaram os parâmetros das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reservas Legais (RLs) antropizadas antes de 22/07/2008, continua sendo um desafio enorme para seu cumprimento.
Em que pese sua localização estratégica, marcada por uma densa malha viária, relativa proximidade da capital BH e das dos estados de SP, RJ e ES e acesso facilitado a importantes portos (Açu, Sepetiba, Rio e Vitória), a ZMM perdeu o protagonismo econômico que exerceu até 1980. Região que se destacou pela industrialização e pelo ensino superior, passou a enfrentar transformações econômicas e institucionais que contribuíram para a redução de sua dinâmica econômica e para o agravamento de desafios socioambientais.
Ela passa por uma prolongada crise de redefinição de seu papel econômico e ainda busca consolidar novas vocações capazes de impulsionar seu desenvolvimento. Situação distinta foi observada durante a crise da cafeicultura no início do século passado quando parte dos chamados barões do café direcionou investimentos na implantação de usinas hidrelétricas e criação de instituições financeiras para a promoção da industrialização regional.
Após estes barões, o único expoente político nacional foi o ex-presidente Itamar Franco. Isso é pouco para quem teve Arthur Bernardes e, fora da seara política, Santos Dumont, Humberto Mauro (patrono do cinema nacional), Ari Barroso, entre outros, além de ter sido o berço das primeiras usinas hidroelétricas, linha ferroviária de Minas Gerais (Estrada de Ferro Leopoldina) e rodovias pavimentadas e possuir dois dos principais centros universitário, UFV e UFJF, interligados pela trágica e precária BR120 que corta o polo moveleiro de Ubá, MG, que, se não o player do Brasil, é o maior consumidor de painéis de madeira.
Além disso, boa parte da BR 116, que liga o sul ao nordeste brasileiro, tem seu traçado na região que também foi palco de uma extensa malha ferroviária que ligava o interior de Minas aos estados de SP, ES e RJ, mas que se encontra em ruinas, total abandono, exceto o ramal que liga Cataguases à Três Rios, RJ, e daí para o interior de São Paulo. Embora desativada, não fora invadida.
Nem tudo está perdido. Ainda há tempo para que Minas Gerais, e em especial a ZMM, reencontrem seu caminho de desenvolvimento e construam uma nova identidade econômica para o futuro. Nesse contexto, a região apresenta condições particularmente favoráveis às atividades florestais, uma vez que sua topografia montanhosa, embora imponha limitações à agricultura mecanizada, mostra-se adequada à mecanização florestal. Experiências observadas em diversos países do hemisfério norte demonstram que áreas de relevo mais acidentado podem sustentar cadeias produtivas de base florestal.
Embora o Brasil possua importantes indústrias florestais em regiões montanhosas, como a Cenibra, em Minas Gerais, e a Klabin, no Paraná, desde o início dos anos 2000 a expansão do setor direcionou-se para novas fronteiras com extensas áreas que apesar de distróficas, são baratas, planas e mecanizáveis que favoreceram a implantação de novos projetos de reflorestamento no Maranhão e Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, o avanço das culturas agrícolas de alta rentabilidade (grãos em geral) passou a intensificar a competição pela terra nessas regiões. Saturada esta fronteira, o setor florestal precisa agora confrontar-se com a topografia não plana que sempre esteve disponível, porém, em grande medida, negligenciada.
Assim, chegou a hora delas (indústrias florestais) enfrentarem a realidade topográfica e a estrutura fundiária das regiões montanhosas do Sudeste que tem as vantagens da quantidade de terras ociosas, férteis e baratas, com rios caudais, logística e proximidades dos portos e grandes centros repletos de infraestrutura urbana de suporte aos projetos industriais.
Como residentes e profissionais da área florestal, dói-nos ver esta situação caótica em que se encontra a nossa ZMM e nos sentirmos impotentes e apáticos por não conseguirmos reverter este cenário. Este fato é, sem dúvida, uma vergonha para as universidades do entorno, já que um dos pilares das mesmas é desenvolver a região e suas municipalidades. Tendo isso em vista, falta ampliar mais a ponte entre universidade e política de desenvolvimento territorial. Isto é, um projeto regional de base florestal que desenvolva e crie atividades produtivas, capazes de reter, na própria região, os quadros formados por ela em vez apenas de exportar “crânios” para outras e para o resto do mundo.
Entretanto, não nos falta esperança. Para isso, a solução nasce, e passa, pela atuação política. Temos personalidades estratégicas para tal, como: Paulo Hartung, ex-governador, ex-senador da República e atual presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ); Renato Casagrande, Engenheiro Florestal e governador capixaba; e Thiago Pampolha, ex-secretário estadual de Ambiente e Sustentabilidade, e ex-vice-governador do Rio de Janeiro,
Para dar guarida a esta baita iniciativa disruptiva, temos os cursos de Engenharia Florestal na UFV e nas próximas à ZMM, como a UFLA, UFVJM, UFES e a UFRRJ, onde contamos, além dos excelentes docentes, com os mais equipados laboratórios de tecnologia, manejo florestal e silvicultura.
A implantação da cadeia florestal, sobretudo da indústria de celulose, apresenta-se como uma importante oportunidade para a recuperação econômica e ambiental da região. A expansão de projetos de reflorestamento pode conferir uso produtivo as áreas ociosas e degradadas, contribuir para a sua recuperação e adequação às exigências das APPs e RLs. Só a indústria florestal para justificar o nome Zona da Mata para a região que, hoje nem da Moita é mais. Por dedução e pelo perdão da palavra, restou a “zona” degradada, decadente e deprimente.
Evidentemente, não se trata de cobrir morros com monoculturas de eucalipto e chamar isso de mata. O que se busca, em junção com a silvicultura, é a equação econômica que, ao menos hoje, inexiste. Seria, portanto, as parcerias com a indústria que, por sua vez, permite ao produtor rural custear a recuperação das APPs e da RL com espécies nativas, compondo um mosaico paisagístico com o plantio comercial. Sem essa âncora econômica, a alternativa real, como se constata hoje, é, tão somente, o pasto degradado.
Escassearam-se as terras planas com rios caudais e proximidade dos portos para hospedar esta indústria no oeste. E nem precisa ter mais, deixemos as planas para a produção de alimentos e usemos as montanhosas para madeira, assim como há séculos são nos países com os melhores IDHs e que tem a atividade florestal como a gênese econômica.
Para que isso ocorra, Minas Gerais precisa voltar a pensar estrategicamente o seu próprio futuro. Observam-se frequentemente lideranças políticas mineiras com projeção regional e nacional debatendo temas de costumes e pautas morais inócuas para enfrentar os desafios do desenvolvimento estadual, especialmente em um estado formado por pequenas cidades e extensas áreas rurais.
Faltam, muitas vezes, lideranças, pesquisadores, empresários e gestores públicos dedicados a formular projetos capazes de reposicionar economicamente a ZMM. Academia, iniciativas privadas e o Poder Público precisam atuar de forma articulada para construir essa visão de futuro, quae sera tamem.
[1] Professor Titular do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (DEF/UFV), valverde@ufv.br.
[2] Advogada pela Universidade Federal de Viçosa, Mestra e Doutoranda pelo Departamento de Engenharia Florestal (DEF/UFV), alexia.diniz@ufv.br.
[3] Graduando em Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa, vinicius.p.aguiar@ufv.br







