Tecnologia acelera reposição florestal em áreas degradadas

Uma téc­nica de res­tau­ra­ção flo­res­tal desen­vol­vida em Minas Gerais vem pro­vando sua efi­ci­ên­cia para a rápida rege­ne­ra­ção de áreas devas­ta­das por desas­tres ambi­en­tais. O método desen­vol­vido pela Uni­ver­si­dade Fede­ral de Viçosa (UFV) já mos­tra resul­ta­dos em áreas que somam 250 hec­ta­res no muni­cí­pio de Bru­ma­di­nho, na Região Metro­po­li­tana de Belo Hori­zonte, degra­da­das pela lama de rejeito de miné­rio após o rom­pi­mento de uma bar­ra­gem da Vale em 2019.

O enge­nheiro flo­res­tal Glei­son dos San­tos, pro­fes­sor de Gené­tica no Depar­ta­mento de Enge­nha­ria Flo­res­tal da UFV, explica que o método foi apre­sen­tado como uma dis­ser­ta­ção de mes­trado no fim de 2018, e logo se mos­trou uma solu­ção para Bru­ma­di­nho. “Há uns três ou qua­tro anos já faze­mos o uso da téc­nica em grande escala junto à Vale e com­pro­vando aquilo que os expe­ri­men­tos ini­ci­ais diziam”, relata. Em campo, o que se vê são árvo­res que nor­mal­mente leva­riam dez, 12 ou até 20 anos pro­du­zindo suas pri­mei­ras flo­res e fru­tos entre seis meses e um ano.

Deno­mi­nado “Res­gate de DNA e indu­ção de flo­res­ci­mento pre­coce em espé­cies flo­res­tais nati­vas”, o método começa com o res­gate do mate­rial gené­tico de árvo­res nati­vas dire­ta­mente nas áreas impac­ta­das. Nos labo­ra­tó­rios da UFV, esse mate­rial passa por pro­ces­sos de pro­pa­ga­ção vege­ta­tiva, asse­gu­rando vari­a­bi­li­dade gené­tica e adap­ta­ção às con­di­ções ambi­en­tais locais.

“Antes daquele indi­ví­duo mor­rer, nós res­ga­ta­mos o seu DNA e faze­mos várias cópias. Para pre­ser­var a gené­tica das espé­cies, nós não plan­ta­mos uma cópia perto da outra. Plan­ta­mos uma muda ao lado daquela que estava mor­rendo e as outras cópias dis­tan­tes dali, de maneira que seu pólen, o gameta, não poli­nize aquela mesma cópia”, des­taca Glei­son.

Depois dos labo­ra­tó­rios, as mudas são cul­ti­va­das por meio de enxer­tia nos vivei­ros da uni­ver­si­dade, uti­li­zando como base plan­tas da mesma espé­cie. O pró­ximo passo é a apli­ca­ção de um regu­la­dor de cres­ci­mento desen­vol­vido na UFV, res­pon­sá­vel por indu­zir o flo­res­ci­mento pre­coce. É neces­sá­rio ape­nas uma apli­ca­ção para que a planta passe da fase juve­nil para a adulta, quando começa a pro­du­zir flo­res, fru­tos e semen­tes.

Depois disso, as mudas seguem para as áreas a serem rege­ne­ra­das, que já rece­be­ram um tra­ba­lho de recu­pe­ra­ção do solo para que as espé­cies pos­sam se desen­vol­ver ali. O pro­fes­sor escla­rece que as plan­tas que flo­res­cem pre­co­ce­mente, de seis meses a um ano, vão pro­du­zir a quan­ti­dade de flo­res e fru­tos de acordo com a sua copa. Mas, ainda que pouco, ela já começa a dis­per­sar sua gené­tica na natu­reza e a ali­men­tar a fauna local.

“Como­as­plan­tas­jo­vens­pas­sa­ma­ge­rar­flo­res e fru­tos muito antes do ciclo natu­ral espe­rado, o retorno das inte­ra­ções eco­ló­gi­cas é ace­le­rado, atra­indo fauna, favo­re­cendo a dis­per­são de semen­tes e res­ta­be­le­cendo o equi­lí­brio dose­cos­sis­te­mas.São­as­flo­res­que­a­li­men­tam os inse­tos como abe­lhas e for­mi­gas. Elas vão dar fru­tos, que vão ali­men­tar tam­bém a fauna, como roe­do­res e peque­nos ani­mais sil­ves­tres. Agora ima­gina se essas espé­cies fos­sem plan­ta­das a par­tir de semente, no método tra­di­ci­o­nal. Só teria comida para aque­les bichos da área depois de dez, 12 anos”, com­para.

“Como as plan­tas jovens pas­sam a gerar flo­res e fru­tos muito antes do ciclo natu­ral espe­rado, o retorno das inte­ra­ções eco­ló­gi­cas é ace­le­rado, atra­indo fauna, favo­re­cendo a dis­per­são de semen­tes e res­ta­be­le­cendo o equi­lí­brio dos ecos­sis­te­mas”

●●●●

Glei­son dos San­tos Enge­nheiro flo­res­tal pro­fes­sor da UFV

O tra­ba­lho em Bru­ma­di­nho come­çou envol­vendo ape­nas seis espé­cies locais atin­gi­das pelo rom­pi­mento da bar­ra­gem. Depois foram inclu­í­das espé­cies da Mata Atlân­tica e do Cer­rado que esta­vam em risco de extin­ção. Com isso, subiu de seis para 30 espé­cies desen­vol­vi­das pelo pro­grama, como o jaca­randá-cavi­úna, o ipê-ama­relo, o jequi­tibá, a bra­úna, o cedro, a canela-sas­sa­frás e o gua­nandi. Em seis anos, 290 mil mudas foram plan­ta­das uti­li­zando dife­ren­tes téc­ni­cas em áreas dire­ta­mente atin­gi­das, reser­vas legais e Áreas de Pre­ser­va­ção Per­ma­nente (APPs).

APLICAÇÃO NO SUL

Há cerca de um ano a mesma téc­nica vem sendo apli­cada no Rio Grande do Sul, em áreas afe­ta­das pelas enchen­tes de 2024 que afe­ta­ra­mas­mar­gens­de­rios,ave­ge­ta­ção­na­ti­va­eos habi­tats da fauna. O pro­grama res­ga­tou o mate­rial gené­tico de 32 espé­cies locais em campo. O tra­ba­lho está na fase de mape­a­mento e pro­du­ção de mudas, mas, ainda em 2026, terá iní­cio o plan­tio. No total, a área afe­tada soma apro­xi­ma­da­mente 1.200 hec­ta­res, mas não con­tí­nuos, ao longo das mar­gens dos rios.

O pro­cesso será uti­li­zado para ace­le­rar a recu­pe­ra­ção das matas cili­a­res, for­ta­le­cer a pro­te­ção das mar­gens dos rios e con­tri­buir para a pre­ven­ção de novos pro­ces­sos ero­si­vos e impac­tos asso­ci­a­dos a even­tos extre­mos. O tra­ba­lho envolve qua­tro uni­ver­si­da­des locais, que rece­be­ram trans­fe­rên­cia da tec­no­lo­gia gra­tui­ta­mente pela UFV devido ao con­texto ambi­en­tal e apoio ao governo do estado. O método tam­bém está sendo usado no Pará, com o res­gate do DNA e ace­le­ra­ção de flo­res­ci­mento de espé­cies da Ama­zô­nia que estão em risco de extin­ção, devido ao ala­ga­mento de áreas para a cons­tru­ção da hidre­lé­trica de Belo Monte.

Glei­son res­salta a impor­tân­cia da par­ce­ria entre a uni­ver­si­dade e empre­sas: “A uni­ver­si­dade desen­vol­veu a tec­no­lo­gia, a empresa pre­ci­sou e apli­cou num case em escala. Esse pro­jeto pagou diver­sas bol­sas aqui na uni­ver­si­dade, de dou­to­rado, de mes­trado, de gra­du­a­ção. For­mou gente e esse pes­soal já está tra­ba­lhando no mer­cado a par­tir do pro­jeto desen­vol­vido junto com a Vale”.