​​Brasil apresenta legado da COP30 para agenda climática global

Em visita técnica ao Brasil, a delegação da COP31 (Trigésima Primeira Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – UNFCCC) conheceu a iniciativa AgriZone (Casa da Agricultura Sustentável) e Vitrines Vivas (Living Laboratories), onde foram demonstradas tecnologias para uma agricultura mais sustentável e resiliente às mudanças climáticas, idealizada e executada pela Embrapa e parceiros durante a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas 2025), em Belém (PA). O encontro ocorreu no dia 1º de junho no Rio de Janeiro, promovido pela presidência da COP30, Embrapa e ICS (Instituto Clima e Sociedade), representando uma oportunidade estratégica para discutir como a experiência brasileira pode inspirar e se transformar em uma tendência para as próximas conferências do clima da ONU.

“O desafio global das mudanças climáticas não pode ser conduzido sem estratégias de longo prazo relacionadas à segurança alimentar, incluindo gerenciamento hídrico, recuperação de áreas degradadas e adaptação climática. Foi extremamente valioso conhecer essa iniciativa da Embrapa, que aliou ciência, políticas públicas e financiamento”, afirmou Mehmet Yener, representante da presidência da COP31, que será realizada em novembro na Turquia.

Além da delegação turca, estiveram presentes mais de 30 autoridades nacionais e estrangeiras, com o objetivo de aprofundar o diálogo sobre caminhos conjuntos para acelerar soluções reais, voltadas à adaptação climática, à sustentabilidade da produção agropecuária e à construção de sistemas alimentares mais resilientes. “Durante a COP30, o Brasil apresentou ao mundo uma abordagem inovadora que integrou ciência, agricultura, sustentabilidade, bioeconomia, inclusão produtiva e políticas públicas. Demonstramos com êxito como inovação e cooperação na agenda agrícola podem resultar em soluções concretas para a questão climática em diferentes regiões do planeta”, afirmou a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá.

Na Embrapa Solos (RJ), foi apresentada uma amostra do ecossistema de inovação da Embrapa, uma vitrine de soluções tecnológicas para os desafios climáticos globais. Também foi realizada uma discussão estratégica sobre a continuidade da abordagem integrada entre ciência, agricultura e sociedade com vistas à transformação dos sistemas alimentares e resiliência climática. “A ideia é fortalecer o papel das soluções agrícolas sustentáveis ​​baseadas na ciência nas futuras COPs, demonstrando como vitrines vivas, diálogos inclusivos e cooperação internacional podem aproximar governos, organismos internacionais, setor produtivo, academia e sociedade”, afirmou Ana Euler, diretora-executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa.

Marcelo Morandi, chefe da Assessoria de Relações Internacionais, e Ana Euler, diretora-executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia

Agenda estratégica

A iniciativa integra uma agenda estratégica do governo brasileiro e parceiros para o fortalecimento das discussões internacionais sobre segurança alimentar, adaptação e resiliência climática, temas centrais para o presente e o futuro dos sistemas agroalimentares em todo o planeta. “Para além das negociações e exposições tradicionais que ocorrem na Zona Azul e na Zona Verde, espaços reservados da ONU, durante as COPs, demonstramos na COP30, na prática, como a agricultura pode ser parte da solução para a agenda climática. Conseguimos engajar diversos atores e apresentar oportunidades de implementação de ações concretas, para sairmos da vulnerabilidade para a resiliência na agricultura”, disse Marcelo Morandi, chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa.

Bruna Cerqueira, coordenadora-geral da Agenda de Ação da COP30, enfatizou a importância do compartilhamento das experiências mostradas na Agrizone, uma vez que transformar os sistemas alimentares é central para a ação climática, a resiliência e o desenvolvimento humano. “Especialmente as soluções que podem ser aceleradas para que se atinja avanços em agricultura regenerativa, recuperação de áreas degradadas, agroflorestas e no tema da segurança alimentar, que a Turquia colocará muito claramente durante a COP 31”, completou.

Na segunda parte do evento, que ocorreu no Teatro EcoVilla Ri Happy, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, um painel buscou estabelecer sinergias entre ação climática, conservação da biodiversidade, restauração de terras e sistemas alimentares resilientes para a agenda global de alimentos, com base nos três tratados fundamentais estabelecidos durante a Eco-92, no Rio de Janeiro: a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a CDB (Convenção sobre Diversidade Biológica) e a UNCCD (Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação).

Também foram exploradas oportunidades para um posicionamento integrado e implementação dos planos para acelerar soluções para a Agenda de Ação Climática Global na COP31, especialmente aquelas relacionadas ao eixo estratégico de transformação da agricultura e dos sistemas alimentares, elemento central para a ação climática, a resiliência e o desenvolvimento humano.

Resiliência territorial no Semiárido brasileiro

A exibição sobre a AgriZone, criada na Embrapa Solos, em parceria com Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ) e Embrapa Agrobiologia (RJ), foi composta por um circuito dividido em estações temáticas com tecnologias apresentadas durante a COP30. Destaque para a sala “Semeando resiliência: da sabedoria territorial à ciência do futuro”, que demonstrou como a agricultura tropical deixou de ser apenas um setor impactado para se transformar em uma provedora central de soluções para as discussões climáticas e tomadas de decisão global.

“Deixamos claro que a adaptação climática não é um conceito abstrato, mas uma realidade construída na convergência entre a ciência avançada e a sabedoria de quem vive o território. Um grande exemplo dessa sinergia está nos sistemas adaptados para o Semiárido brasileiro, uma região historicamente desafiada pela escassez hídrica, mas que hoje se destaca como um laboratório vivo de convivência com a seca, resiliência socioambiental e segurança alimentar”, destacou Gizelle Cristina Bedendo, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Solos.

A estação mostrou como tecnologias sociais consagradas, como as Barragens Subterrâneas, funcionam como sistemas eficientes de armazenamento da água da chuva diretamente no solo, viabilizando a produção agrícola mesmo nos períodos mais severos de estiagem. Os especialistas explicaram que a Embrapa e seus parceiros elevaram o impacto dessa sabedoria tradicional ao introduzir ferramentas de alta precisão científica, como o sistema ZonBarragem, que realizou o mapeamento digital das áreas com maior aptidão biofísica para receber essas estruturas, e o aplicativo GuardeÁgua, ferramenta digital que permite que técnicos de extensão, agricultores e comunidades identifiquem com assertividade locais apropriados à construção de barragens subterrâneas.

Foi apresentado também como o melhoramento genético com foco na seleção de caprinos e ovinos mais produtivos e mais adaptados às altas temperaturas do Semiárido, somado ao manejo integrado de paisagens e diagnósticos rápidos para suplementação forrageira, assegura que a produção de proteína animal resista aos extremos climáticos, preservando a identidade cultural e expandindo a renda local.

Bom exemplo também no bioma amazônico

Mudando o foco para a região Norte do Brasil, a estação sobre resiliência territorial mostrou como a produção de café na Amazônia tornou-se uma aliada estratégica da conservação. A Embrapa, por meio do melhoramento genético para adaptação, desenvolveu cultivares de robusta amazônico que são significativamente mais resistentes aos impactos e estresses climáticos, assegurando a produtividade mesmo diante das oscilações de temperatura e regime de chuvas. Essa base biológica é blindada por ferramentas de previsão climática e zoneamento territorial, que oferecem às famílias agricultoras um planejamento seguro para o cultivo, mitigando riscos de perdas e evitando a abertura de novas áreas.

“Assim como no Semiárido, esses avanços científicos na região amazônica se conectam profundamente com os saberes locais e com a valorização cultural das comunidades tradicionais e povos indígenas que cultivam a terra”, ressaltou Gizelle Bedendo.

Agricultura de baixo carbonoOutra vitrine mostrou como o Plano ABC consolidou-se como a principal política institucional do Brasil para uma agropecuária de baixas emissões, por meio de parcerias robustas com o setor privado para o desenvolvimento de protocolos e selos de validação científica. Esses protocolos cobrem cadeias fundamentais, como carne, leite, soja, milho, trigo e sorgo, e estabelecem métricas rigorosas para avaliar a intensidade das emissões de gases de efeito estufa (GEE) por tonelada de produto.Os especialistas apontam que a base dessa estratégia é o manejo sustentável do solo. Por meio da recuperação de pastagens degradadas, da adoção de sistemas integrados (como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) e do incremento de matéria orgânica no solo, essas tecnologias não apenas mitigam a pegada de carbono, como promovem o sequestro real de gás carbônico (CO₂) da atmosfera, transformando o solo agrícola em um poderoso dreno de carbono.Selos como o Soja Baixo Carbono, Carne Baixo Carbono e o Leite Baixo Carbono oferecem ao mercado internacional a comprovação científica de que é possível produzir alimentos em larga escala com alto desempenho ambiental, podendo fornecer aos tomadores de decisão dados concretos para precificação de ativos ambientais e investimentos verdes.