*Por Douglas Lazaretti, vice-presidente executivo Florestal da Suzano, e Pablo Cadaval Santos, diretor de Tecnologia e Inovação da Suzano.
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção para o futuro. Elas já fazem parte da realidade operacional de empresas que dependem diretamente dos recursos naturais.
Secas mais prolongadas, temperaturas mais elevadas, eventos climáticos extremos e maior ocorrência de incêndios vêm alterando as condições de produção em diferentes regiões do planeta. Para setores baseados na natureza, como o florestal, esse cenário traz um desafio objetivo: como manter a produtividade, a competitividade e a capacidade de atender à crescente demanda global por produtos renováveis em um ambiente cada vez mais adverso?
Na Suzano, essa pergunta orienta uma parte importante dos nossos investimentos em tecnologia, inovação e pesquisa aplicada.
Os dados mostram a dimensão do desafio. Em nossas regiões florestais, observamos uma redução média de aproximadamente 180 milímetros de chuva por ano nos últimos seis anos em comparação à média histórica. Mantidas as mesmas condições de manejo, essa redução poderia representar uma perda potencial de cerca de 7 m³ de madeira por hectare ao ano.
A boa notícia é que produtividade e resiliência não dependem apenas do clima. Dependem também da capacidade de transformar conhecimento em soluções práticas.
E é exatamente nesse ponto que tecnologia, genética, manejo e ciência de dados passam a atuar de forma integrada.
Melhoramento genético: décadas de investimento
Ao longo de mais de seis décadas, a Suzano construiu um dos mais robustos programas de melhoramento genético florestal do mundo. Esse trabalho é hoje uma das principais alavancas da competitividade do nosso negócio.
Quando observamos os ganhos de produtividade obtidos ao longo dos anos, sabemos que a maior parte deles vem da evolução genética dos materiais utilizados. Estimativas internas indicam que o material genético responde por cerca de 65% a 75% dos avanços de produtividade alcançados nas florestas.
Mais do que produzir árvores que cresçam mais rápido, o desafio atual é desenvolver materiais capazes de responder melhor aos estresses climáticos. Isso significa selecionar clones mais adaptados a diferentes condições de solo, temperatura e disponibilidade hídrica, aumentando a estabilidade da produção mesmo em cenários mais desafiadores.
Hoje, a Suzano possui o maior banco genético de eucalipto fora da Austrália, de onde essa árvore é nativa, preservando espécies e materiais que podem se tornar fundamentais para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas. Ao mesmo tempo, novas ferramentas de genômica, fenotipagem avançada, tecnologias de imagem e iniciativas como o Speed Breeding aceleram o desenvolvimento e a recomendação de novos clones, encurtando o caminho entre a pesquisa e a aplicação em escala operacional.
Mas genética sozinha não resolve o problema. Ela precisa caminhar ao lado de um manejo cada vez mais preciso e inteligente.
Manejo florestal de precisão
Cada decisão tomada em campo influencia diretamente a capacidade das árvores de utilizar água, nutrientes e energia de forma eficiente. Espaçamento entre plantas, nutrição, recomendação clonal, planejamento do plantio e condução de brotações são exemplos de práticas que, quando apoiadas por dados e modelos preditivos, contribuem para aumentar a produtividade e reduzir a exposição aos riscos climáticos.
Um exemplo é a ampliação do uso da condução florestal, também conhecida como talhadia ou rebrota. Em vez de realizar um novo plantio após a colheita, aproveita-se a capacidade natural de rebrota do eucalipto para formar uma nova floresta a partir do sistema radicular já estabelecido. Além de reduzir custos operacionais, essa prática exige menos recursos na fase inicial do ciclo e aumenta a capacidade da floresta de enfrentar períodos de estresse hídrico, uma vez que as raízes já estão plenamente desenvolvidas.
O uso racional da água também merece destaque. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a retirada total de água no Brasil alcançou cerca de 2,1 milhões de litros por segundo em 2024. A irrigação responde por 50,3% desse volume, seguida pelo abastecimento humano (22,3%) e pela indústria (9,9%). Juntas, essas atividades representam aproximadamente 82,5% de toda a água retirada dos corpos hídricos do país.
Nesse contexto, é importante desmistificar uma percepção recorrente sobre o eucalipto. Décadas de estudos hidrológicos conduzidos pela Suzano e por instituições de pesquisa demonstram que a disponibilidade de água em uma paisagem depende de múltiplos fatores, como clima, solo, relevo, uso da terra e manejo, e não de uma única espécie vegetal. Nossos estudos de microbacias começaram em 1994 e seguem até hoje.
Além disso, estudos internacionais de pegada hídrica indicam que a madeira de eucalipto apresenta elevada eficiência no uso da água quando comparada a diversas culturas agrícolas, como milho, soja e algodão. O foco, portanto, deve estar em produzir mais utilizando os recursos naturais de forma cada vez mais eficiente.
É justamente aí que entra uma nova camada de transformação: a digital.
A revolução digital no campo
Se o melhoramento genético fornece o potencial produtivo, os dados ajudam a capturar esse potencial.
Nos últimos anos, o setor florestal passou por uma revolução silenciosa impulsionada por imagens de satélite, inteligência artificial, sensoriamento remoto, modelagem climática, algoritmos de recomendação e análise avançada de dados.
Na Suzano, migramos gradualmente de modelos baseados em amostragens para uma visão próxima do censo da base florestal. Hoje conseguimos monitorar milhões de árvores em larga escala, identificar anomalias precocemente, estimar produtividade, acompanhar impactos climáticos e direcionar ações corretivas com velocidade e precisão muito superiores às disponíveis há poucos anos.
A tecnologia também está presente no monitoramento fitossanitário, na detecção de riscos, no planejamento operacional e na proteção das florestas. Em alguns casos, ela permite identificar alterações em áreas extremamente pequenas antes que se transformem em perdas relevantes de produtividade.
O resultado dessa combinação de genética, manejo e tecnologia é claro: mesmo diante de um cenário climático mais adverso, seguimos ampliando a produtividade de nossas florestas. Entre 2023 e a próxima década, projetamos ganhos relevantes de produtividade por hectare, resultado da integração entre melhoramento genético, silvicultura e inovação tecnológica.
Nós e o setor: colaboração para a transformação
As mudanças climáticas representam um desafio comum para todo o setor florestal. Nenhuma empresa conseguirá enfrentá-lo sozinha.
Existe espaço para colaboração em temas como ciência climática, monitoramento ambiental, prevenção de incêndios, pesquisa genética, biotecnologia e desenvolvimento de novas ferramentas digitais. São desafios compartilhados e que exigem soluções cada vez mais coletivas.
Ao mesmo tempo, cada empresa constrói seus próprios diferenciais competitivos a partir de sua história, de seus investimentos e da capacidade de transformar conhecimento em execução.
Na Suzano, acreditamos que a combinação entre ciência, tecnologia, inovação e disciplina operacional continuará sendo o principal caminho para aumentar a resiliência das florestas, preservar a competitividade do negócio e garantir que materiais renováveis façam parte da solução para os desafios do futuro.







