A transformação provocada pela implantação de uma fábrica de celulose em Inocência também tem levado trabalhadores a retomar os estudos de olho nas oportunidades que devem surgir com a expansão da indústria no município. Um curso preparatório gratuito para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) tornou-se uma das alternativas para quem busca concluir os ensinos fundamental ou médio e ampliar as possibilidades profissionais.
A iniciativa é oferecida pela Arauco em parceria com a Prefeitura de Inocência e apoio do Sesi. Além das aulas e do material didático, os participantes recebem alimentação e contam com monitor infantil para os filhos, estrutura pensada principalmente para quem precisa dividir o tempo entre trabalho, família e estudos.
No ano passado, 63% dos participantes do projeto em Inocência foram aprovados no Encceja. Segundo os dados apresentados pela organização, a média nacional de aprovação foi de 12,5%. Em 2026, a prova será aplicada em todo o país no dia 23 de agosto.
O resultado ganha relevância em um município que passa por mudanças no mercado de trabalho com a implantação da unidade de celulose. Para parte dos trabalhadores que hoje atuam na construção da fábrica, concluir a escolaridade representa também a possibilidade de disputar outras funções quando a operação industrial começar.
Rotina começa antes das 5h e termina na sala de aula
Entre os participantes está o carpinteiro Marcelo Augusto Brito, que deixou o Maranhão para trabalhar na construção da fábrica em Inocência. A rotina dele é semelhante à de outros alunos do curso: o dia começa antes das 5 horas, segue com o trabalho no canteiro de obras e termina com mais três horas de estudo.
Mesmo após uma jornada inteira de trabalho, Marcelo mantém a frequência nas aulas com o objetivo de conquistar a certificação.
“Depois de um dia inteiro de trabalho, a gente ainda vem para a aula. Não sei de onde tiro tanta disposição, mas a vontade de crescer e buscar conhecimento é maior”, reconheceu.
O esforço está diretamente relacionado aos planos profissionais. Com a conclusão da obra, ele pretende buscar uma oportunidade na própria operação da unidade industrial.
“A obra vai acabar, mas a fábrica vai precisar de profissionais preparados. Por isso, estou concluindo os estudos, para tentar uma vaga dessas. Quero construir uma carreira aqui, conquistar um cargo melhor e dar mais estabilidade para a minha família”, afirmou Marcelo.
A procura por qualificação acompanha o aumento da demanda por trabalhadores em cadeias produtivas como a da celulose. Nesse cenário, a escolaridade passa a ser uma etapa importante para quem pretende concorrer a novas funções dentro do setor industrial.

Retorno à escola recupera planos interrompidos
O operador de máquinas Marcolino de Souza Santos também decidiu voltar à sala de aula. Nascido na zona rural da Bahia, ele teve os estudos interrompidos pelas dificuldades de acesso à escola e encontrou no preparatório uma oportunidade de retomar um projeto antigo.
“A oportunidade está aí. Só não vai abraçar quem não quer.”
Para Marcolino, a experiência vai além da obtenção do certificado. Mesmo depois de uma jornada de trabalho, ele afirma encontrar motivação ao chegar à escola.
“Para mim, a escola está sendo uma terapia. Chego aqui cansado, mas quando entro na sala de aula, ganho forças para continuar. Eu não vou desistir. Quero concluir os estudos e seguir construindo o meu futuro”, ressaltou.
O curso tem duração de três meses e é realizado no Centro de Educação Integrada Prof. Olivalto Elias da Silva, em Inocência. Os alunos recebem acompanhamento pedagógico e fazem simulados preparados para reproduzir as condições encontradas no Encceja.

Educação acompanha mudanças no município
Além da certificação, a iniciativa busca preparar trabalhadores para um mercado que tende a exigir maior qualificação conforme novos empreendimentos avançam em Inocência.
O gerente regional Leste do Sesi, Raphael Affonso, destaca que a educação pode ter impacto não apenas na trajetória profissional, mas também na vida familiar dos participantes.
“O trabalhador é o epicentro dessa mudança. Ele muitas vezes deixa a família, vem em busca de uma oportunidade e, além da experiência profissional, conquista educação. Quando ele transforma a própria vida, transforma também a vida da família e das pessoas ao seu redor”, disse.
A secretária municipal de Educação de Inocência, Adriana Franco, avalia que a qualificação também está ligada à preparação do município para os próximos anos. Parte dos profissionais que chegaram para trabalhar na construção da fábrica, segundo ela, pretende continuar na cidade.
“Precisamos de pessoas mais qualificadas e preparadas para o mercado de trabalho. Muitos trabalhadores que chegaram para a construção da fábrica, querem permanecer aqui. Isso é muito importante, porque investir em educação é investir também no futuro da cidade”, afirmou.
A gerente de Desempenho Social da Arauco, Claudia Belchior, também relaciona a conclusão da escolaridade à possibilidade de ampliar o acesso dos moradores a outras capacitações profissionais.
“A elevação de escolaridade é um grande passo para que possamos oportunizar mais capacitações de moradores para o mercado de trabalho”, disse.
Com a prova do Encceja marcada para 23 de agosto, os participantes entram na reta final da preparação. Para trabalhadores como Marcelo e Marcolino, o certificado representa mais que a conclusão de uma etapa escolar: pode ser o requisito que faltava para disputar novas oportunidades em um mercado de trabalho que está mudando junto com Inocência.






