Embrapa Florestas apresenta índice que mede risco de redução de área de espécies florestais sob mudanças climáticas

A Embrapa Florestas publicou, em julho de 2026, o Comunicado Técnico 526, que apresenta um novo instrumento para avaliar os impactos das mudanças climáticas sobre espécies florestais: o Risco de Redução de Área (RRA). O estudo é assinado pelos pesquisadores Elenice Fritzsons, Marcos Silveira Wrege, Samuel Freitas de Souza, Maria Teresa Gomes Lopes, Valderês Aparecida de Sousa e Ananda Virginia de Aguiar. Confira a publicação na íntegra clicando aqui.

O índice expressa o grau de ameaça a que uma espécie pode estar submetida em decorrência de alterações em seu nicho ecológico — ou seja, a área favorável ao seu desenvolvimento, considerando tanto cenários atuais quanto projeções futuras. Para determinar esse nicho, os pesquisadores analisam onde as espécies ocorrem naturalmente, levando em conta limitações edafoclimáticas como características de solo e temperaturas máximas e mínimas.

Nas projeções futuras, o RRA avalia a extensão desse nicho em função das mudanças climáticas, que podem tanto ampliar quanto restringir as condições ambientais adequadas à ocorrência de cada espécie. Já na avaliação das condições atuais, o índice incorpora fatores como o uso e a cobertura da terra na área de distribuição natural, o interesse em sua propagação — seja para cultivo ou manejo — e a vulnerabilidade biológica da espécie.

Metodologia combina quatro componentes de risco

O arcabouço teórico do RRA foi construído a partir do conceito de risco climático adotado pelo AdaptaBrasil MCTI, plataforma resultante de cooperação entre o INPE e a RNP, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. O modelo original, fundamentado em conceitos de Gallopín e do IPCC, organiza o risco em três dimensões: ameaça climática, vulnerabilidade e exposição. Os autores acrescentaram um quarto componente — o indicador de demanda —, chegando a uma composição final formada por Ameaça Climática (IAC), Exposição (IE), Vulnerabilidade (IV) e Demanda (ID), multiplicados entre si para gerar o índice.

O IAC compara a área favorável atual com a área potencialmente favorável em cenários futuros, com base no Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, nos horizontes de 2030 e 2070. Quando o indicador é igual a 1, o nicho permanece estável; acima de 1, há expansão; abaixo de 1, retração. O IE atribui pesos às classes de uso e cobertura da terra, de modo que áreas mais protegidas recebem peso 1 e as mais expostas, 0,10. A vulnerabilidade considera características intrínsecas das espécies, como resistência ao fogo, facilidade de perfilhamento, dispersão por sementes e capacidade de adaptação a ambientes degradados. Já o ID diferencia o interesse econômico e ecológico, com pesos de 1,0 para alta demanda, 0,5 para média e 0,25 para baixa.

Uma particularidade metodológica merece destaque: diferentemente de índices convencionais, valores menores de RRA indicam maior risco. A lógica inversa se aplica a todos os componentes, o que exige atenção redobrada na leitura dos resultados.

Aplicação a palmeiras da Amazônia Legal aponta risco crítico para uma espécie

O método foi desenvolvido especificamente para quatro espécies de palmeiras da Amazônia Legal, com detalhamento publicado em Fritzsons et al. (2025). Os resultados mostram um gradiente de risco bem definido: Astrocaryum aculeatum apresenta o maior risco de redução de área, com RRA de apenas 0,0002 — valor puxado sobretudo pelo IAC de 0,01, que sinaliza retração praticamente total do nicho ecológico projetado. Na outra ponta, Euterpe oleracea (açaí) registra o menor risco, com RRA de 0,4860, sustentado por vulnerabilidade e demanda máximas. As espécies Astrocaryum acaule (0,0128) e Euterpe precatoria (0,0615) ocupam posições intermediárias.

Os autores ressaltam que o índice foi concebido para uso comparativo, tanto entre diferentes espécies em uma mesma região quanto no monitoramento da dinâmica e da resiliência de uma mesma espécie ao longo do tempo, em uma área previamente delimitada. Em monitoramentos temporais, o componente de vulnerabilidade pode ser excluído do cálculo, por ser o único elemento estático do método. Para conjuntos com mais de 20 espécies, recomenda-se agrupar os valores em classes de risco — alto, médio e baixo — por meio de análise de agrupamento, permitindo que cada grupo receba estratégias específicas de mitigação, adaptação e conservação.

O estudo também alerta para uma assimetria importante na interpretação do indicador de demanda. Para espécies cujo interesse principal está nos frutos, como as palmeiras, uma maior demanda tende a favorecer ações de conservação e cultivo, reduzindo o risco. Para espécies madeireiras, o raciocínio se inverte: maior demanda, sem manejo adequado, pode intensificar o extrativismo predatório e elevar o risco — situação ainda presente em diversas regiões da Amazônia Legal para espécies de alto valor comercial.

Redação Mais Floresta