Durante o III Encontro Nacional da Nativas Brasil, produtores de sementes e mudas nativas, viveiristas, pesquisadores, especialistas e parceiros se reuniram no Instituto Terra dos dias 21 a 23 de Agosto, em Aimorés/MG, para compartilhar experiências, discutir desafios e construir caminhos para o fortalecimento da cadeia produtiva de espécies nativas e da restauração ecológica e produtiva no Brasil.
Ao todo, o encontro contou com 120 participantes presentes, representando 67 instituições e empreendimentos. Mais do que uma programação de palestras e atividades, foram dias de convivência, troca e aproximação entre pessoas que, mesmo atuando em diferentes regiões, Biomas e contextos, compartilham desafios e propósitos comuns.
Ao longo do encontro, os participantes discutiram temas relacionados à produção de sementes e mudas, nichos de mercado, legislação, gestão, inovação e políticas públicas. Mas uma parte importante da experiência aconteceu também nos momentos de conversa, escuta e convivência: nos intervalos, durante as refeições, nas dinâmicas, nos deslocamentos, e nos momentos de confraternização entre os participantes, quando experiências individuais se encontraram e deram origem a novas conexões.
Um encontro que aconteceu em um cenário de restauração
A escolha do Instituto Terra para sediar o III Encontro Nacional da Nativas Brasil trouxe um significado especial para a experiência.
Fundado por Sebastião e Lélia Salgado, o Instituto Terra se tornou uma referência pela transformação de uma área severamente degradada em uma paisagem florestal e por sua atuação voltada à recuperação ambiental, à conservação da biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável.
Foi nesse cenário que viveiristas, coletores de sementes, pesquisadores e parceiros se reuniram para discutir o futuro da cadeia produtiva e, ao mesmo tempo, vivenciar de perto uma experiência concreta de restauração.
O território ajudou a dar uma dimensão ainda mais prática às discussões. Para quem trabalha diariamente com sementes, mudas e espécies nativas, estar em um espaço marcado pela recuperação da paisagem reforçou a conexão entre a produção realizada na base da cadeia e o resultado que esse trabalho pode gerar nos territórios: florestas, biodiversidade e ecossistemas restaurados.
Do presente ao futuro: os caminhos discutidos pela Nativas Brasil
O primeiro dia de atividades começou com a abertura oficial e com um momento de reflexão sobre a própria trajetória da Associação.
No painel 1 “Nativas Brasil: onde estamos e para onde vamos”, os participantes acompanharam a apresentação institucional da Nativas Brasil 2026, conduzida por Rodrigo Ciriello, Presidente da Associação, e logo em seguida a apresentação sobre a Incidência Institucional da Associação, com Renato Ximenes, Diretor Institucional da Nativas Brasil.
Mais do que apresentar ações e perspectivas, esse primeiro momento ajudou a situar os participantes dentro de uma construção coletiva. Ao reunir associados de diferentes regiões e realidades produtivas, o encontro também foi uma oportunidade para olhar para o caminho já percorrido e refletir sobre os próximos passos da Nativas Brasil, ampliando ainda mais a visão sobre o Futuro da Associação.
Na sequência, o painel 2: “Sementes do Amanhã” apresentou diferentes aspectos da iniciativa. Inicialmente, houve a apresentação do projeto de estruturação da produção de espécies nativas: Sementes do Amanhã, pela Secretária Executiva da Associação, Iara Borges.
Em seguida, Luciano Langmantel Eichholz, do Redário, apresentou a importância da articulação das redes de sementes e do referencial de zoneamento para transferência do material genético. Renato Di Giovanni, do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), abordou a Fase 1 do projeto e apresentou as funcionalidades do Sistema O Que Plantar. Iara Borges voltou ao palco para trazer as perspectivas para o futuro do projeto e a interação necessária com os associados.
O projeto apresentado reforça a importância de aproximar informação, planejamento e realidade produtiva. A discussão sobre quais espécies plantar, onde plantar e como organizar e facilitar o acesso a essas informações mostrou como o fortalecimento da cadeia também passa pela construção de ferramentas que apoiem decisões e ampliem a capacidade de planejamento dos produtores, e o projeto Sementes do Amanhã é uma resposta direta à essas necessidades.
Mercados, oportunidades e novos caminhos para as espécies nativas
A programação, na parte da tarde, seguiu com o painel 3: “Nichos de Mercado para Venda de Sementes e Mudas Nativas”, ampliando a discussão sobre as possibilidades de uso e comercialização das espécies nativas.
Thiago Belote, Diretor de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, abordou a restauração ecológica. Em seguida, Kátia Matos, da KM Comércio e Serviços de Paisagismo, apresentou perspectivas relacionadas ao paisagismo com espécies nativas, enquanto Eduardo Ciriello, da Futuro Florestal, trouxe a discussão sobre a Silvicultura de Nativas.
Reunir essas diferentes perspectivas em um mesmo painel ajudou a mostrar que o fortalecimento da cadeia produtiva depende também da ampliação e da diversificação dos mercados.
Neste painel, foi discutido que a restauração ecológica e produtiva é uma frente essencial, mas não é a única possibilidade para as espécies nativas. Paisagismo, silvicultura e outros usos podem contribuir para ampliar a demanda e criar novas oportunidades para produtores e empreendimentos.
A conversa também trouxe à tona um desafio recorrente para a base produtiva: produzir exige planejamento, investimento e previsibilidade. Para que os produtores possam ampliar a diversidade de espécies e estruturar sua produção, é fundamental que os mercados sejam cada vez mais capazes de dialogar com essa realidade, frente a isso foram discutidos diferentes caminhos para se alcançar o fortalecimento do setor.
Ao final do painel, houve um momento de trocas e perguntas, fortalecendo a proposta para que os participantes pudessem ser escutados, criando uma conexão ainda maior com o tema apresentado.
Os desafios do cotidiano também estiveram no centro da conversanbsp;
A programação avançou para temas diretamente relacionados à rotina dos produtores:
O painel 4: “Conformidade Legal” abordou questões relacionadas ao RENASEM e aos seus relatórios, apresentado por Eugênio Fortunato, Auditor Fiscal do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, além da atualização da Instrução Normativa nº17/2017, que regula a produção de sementes e mudas no território nacional e está atualmente passando por uma revisão, apresentada por Juliana Freire, da EMBRAPA Meio Ambiente.
São temas que, embora muitas vezes apareçam apenas como exigências burocráticas, fazem parte do cotidiano de quem atua na produção de sementes e mudas. Levar essas questões para o Encontro Nacional permitiu criar um espaço para compreender mudanças, esclarecer dúvidas e aproximar os participantes de discussões que têm impacto direto sobre a atividade produtiva.
Na sequência o painel 5: “Gestão e Marketing” reuniu diferentes ferramentas para o fortalecimento dos empreendimentos.
João Cézar Gomes, Diretor Financeiro da Nativas Brasil, apresentou possibilidades de uso da inteligência artificial na produção, com foco em gestão, financeiro e planejamento. Pedro Matarazzo, da Da Serra Ambiental, abordou ferramentas e sistemas, enquanto Marilene Vitorino, especialista em neurocomunicação para vendas, enviada pelo SEBRAE, trouxe uma palestra impactante sobre as perspectivas relacionadas às estratégias de venda e marketing.
O conjunto das apresentações ampliou o olhar sobre o que significa fortalecer a produção de espécies nativas e estruturar a cadeia da restauração ecológica e produtiva no Brasil. Foi levantado que produzir sementes e mudas é parte essencial do trabalho, mas a sustentabilidade de um empreendimento também depende da gestão, organização, planejamento, relacionamento com clientes e capacidade de comunicar o valor do que é produzido.
Da programação à construção coletivanbsp;
A última parte do dia foi dedicada às dinâmicas colaborativas, realizadas em grupos. Onde cada grupo teve a oportunidade de contribuir com os temas propostos.
Renato Ximenes conduziu a dinâmica sobre contratos e apoio legal, enquanto Iara Borges conduziu a dinâmica sobre o futuro da Nativas Brasil, com a facilitação de Ivy Frizo, facilitadora do PACTO. No debate sobre contratos e apoio legal, os participantes puderam refletir sobre desafios comuns relacionados às relações comerciais e à segurança necessária para o desenvolvimento das atividades.
Já a dinâmica sobre o futuro da Associação abriu espaço para que os associados contribuíssem diretamente com suas percepções, prioridades e expectativas. Mais do que discutir o que a Nativas Brasil é hoje, o momento ajudou a construir uma reflexão sobre o que a Associação pode se tornar nos próximos anos e sobre o papel que cada associado pode desempenhar nesse processo, foi um momento de fortalecimento da Associação e de integração dos seus associados.
Esse momento de dinâmicas reforçou uma das principais características da Nativas Brasil: a construção coletiva, em vez de apenas acompanhar apresentações, os participantes foram convidados a contribuir nos debates, compartilhar experiências e perspectivas em cards que foram coletados posteriormente para que cada registro seja visto e trabalhado para servirem como subsídio para a tomada de decisões na Associação.
Mais do que compartilhar informações, os associados puderam expor suas experiências e perspectivas em discussão.
Entre os painéis, também aconteceu o Encontro
Uma parte importante da experiência não estava necessariamente prevista na programação:
Nos intervalos e nos momentos de convivência, os participantes continuaram conversando sobre os temas apresentados, compartilhando histórias e conhecendo pessoas que enfrentam desafios semelhantes ou diferentes em outras regiões e Biomas do país.
Para uma rede formada por produtores e parceiros distribuídos por diferentes territórios, esses encontros presenciais têm um valor especial, a troca de experiências e contato humano faz tudo fazer sentido, conhecer um semelhante mas também diferente é uma experiência que agrega culturalmente, tecnicamente e profissionalmente.
Muitas vezes, problemas enfrentados individualmente por um viveiro ou produtor também aparecem em outras regiões. A troca permite reconhecer esses desafios, conhecer soluções que já estão sendo testadas e criar conexões que podem continuar depois do evento.
Foi também nesses momentos que novas parcerias começaram a ser desenhadas e relações já existentes foram fortalecidas.
Do debate ao território: a restauração ganhou novos caminhos
Depois de um primeiro dia marcado por debates, trocas e construção coletiva, o segundo dia levou os participantes das salas para mais perto do território onde a restauração acontece na prática.
A programação incluiu a visita institucional ao Instituto Terra, a visita técnica à RPPN Fazenda Bulcão e a oportunidade de conhecer o novo viveiro de produção de mudas nativas no Instituto Terra. Foi um momento de mudar a perspectiva: sair das discussões teóricas sobre produção, planejamento, mercados e políticas para observar, na prática, no território, como diferentes etapas desse trabalho se manifestam e se organizam.
A experiência no Instituto Terra trouxe uma dimensão especial ao encontro. Em um espaço cuja história está diretamente ligada à recuperação de uma paisagem antes degradada, os participantes puderam percorrer um território que hoje expressa, na prática, muitos dos temas discutidos durante a programação.
Na visita ao viveiro, a atenção se voltou para uma das bases da cadeia: a produção de mudas com inovação e tecnologia. Os participantes puderam observar como simples mudanças e planejamento podem elevar o nível de produção e facilitar a sustentabilidade do negócio.
Já na RPPN Fazenda Bulcão, o contato com a floresta ajudou a ampliar essa conexão. Entre trilhas, árvores e a biodiversidade do território, tornou-se ainda mais evidente o caminho que liga o trabalho realizado por produtores de sementes e mudas aos resultados que se espera alcançar com a restauração.
Essa experiência também ajudou a aproximar escalas. As decisões discutidas nos painéis, sobre quais espécies produzir, como planejar, como estruturar os empreendimentos e como ampliar mercados ganham outra dimensão quando observadas a partir do território.
Ao final, o segundo dia reforçou uma ideia presente em todo o encontro: a restauração não começa apenas quando uma muda é plantada. Ela começa muito antes, na preparação do espaço, na coleta das sementes, no conhecimento sobre as espécies, no planejamento da produção, no trabalho dos viveiros e na articulação entre todos os elos que tornam esse processo possível.
Um capítulo construído por muitas mãos
Quando o III Encontro Nacional da Nativas Brasil chegou ao fim, ficou evidente que os resultados daqueles dias não se encerraram junto com a programação.
O encontro reuniu 120 participantes, representando 67 instituições, mas seu impacto não pode ser medido apenas pelos números. Ao longo dos dias, pessoas de diferentes regiões e Biomas do país se encontraram, compartilharam experiências, reconheceram desafios comuns e construíram novas possibilidades de conexão.
Os painéis trouxeram informações, perspectivas e debates importantes. As dinâmicas abriram espaço para a participação direta dos associados. Os momentos de convivência permitiram que conversas iniciadas durante a programação continuassem de forma mais espontânea. E a experiência no território ajudou a conectar todos esses temas à realidade concreta da restauração.
Os retornos recebidos após o evento refletem essa experiência. Os participantes destacaram a qualidade das trocas, os conhecimentos compartilhados, a oportunidade de conhecer novas iniciativas e pessoas de diferentes regiões e, principalmente, a importância de se sentir parte de uma rede que compartilha desafios e trabalha por objetivos comuns.
Esse talvez seja um dos principais sentidos do Encontro Nacional da Nativas Brasil: criar um espaço em que conhecimentos e experiências não fiquem isolados. Quem produz sementes e mudas, quem pesquisa, quem atua com restauração, quem desenvolve mercados, quem trabalha em instituições e quem participa da formulação de políticas públicas têm perspectivas diferentes, mas também pontos de encontro fundamentais.
É nessa aproximação que surgem novas parcerias, soluções e caminhos.
A trajetória do próprio Encontro Nacional revela o crescimento dessa rede. A primeira edição, realizada em 2024, reuniu cerca de 40 participantes. Em 2025, aproximadamente 90 pessoas.
Mais do que um aumento no número de participantes, esse crescimento representa uma rede cada vez mais fortalecida e conectada. Representa a ampliação do diálogo entre diferentes atores da cadeia e a construção de um espaço em que a experiência de quem está na base produtiva pode ser compartilhada, ouvida e considerada na construção dos próximos caminhos.
O III Encontro Nacional da Nativas Brasil termina não só como um ponto de chegada, resultado de uma trajetória construída até aqui, mas também como um novo ponto de partida.
As conversas iniciadas em Aimorés seguem agora para os viveiros, as redes de sementes, os projetos, as instituições e os diferentes territórios e Biomas representados no encontro. Levam consigo novos contatos, ideias, aprendizados e novas possibilidades de colaboração.
São muitas mãos, muitos territórios e diferentes saberes trabalhando para que sementes e mudas se transformem, ao longo do tempo, em florestas, biodiversidade e um futuro biologicamente viável.
Seguimos juntos, fortalecendo as raízes da restauração.





