Minas Gerais continuará líder em florestas plantadas no Brasil?

Artigo por Mario Coso, Head da ESG Tech

Tenho convicção de que poucos estados se confundem tanto com a trajetória do setor florestal brasileiro quanto Minas Gerais. Sua presença histórica, sua escala e diversidade territorial, sua base industrial e sua cultura se entrelaçam com a própria consolidação do setor florestal nacional. Em certa medida, compreender os seus desafios é contribuir com o avanço do setor nacionalmente.

Minas Gerais lidera o setor brasileiro de florestas plantadas há décadas. O Estado possui cerca de 2,3 milhões de hectares de florestas cultivadas (IBÁ, 2025), distribuídos por mais de 800 municípios, o que faz da silvicultura a maior cultura agrícola mineira em área. Essa liderança foi construída a partir da combinação entre disponibilidade de terras, condições edafoclimáticas favoráveis, tradição florestal consolidada e integração histórica com cadeias industriais intensivas em madeira, como a siderurgia a carvão vegetal, a celulose, a biomassa energética e outros produtos industriais derivados da madeira (MINAS GERAIS; SEAPA, 2025).

Mas liderança não é estática. Ela é disputada, mesmo que não exista uma objetiva competição.

Estados pelo Brasil se movimentam na busca por atrair investimentos e receber o setor de florestas plantadas, que alia sustentabilidade e geração de receitas. O avanço recente de Mato Grosso do Sul evidencia isso de forma clara.

Ao longo da última década, o estado estruturou uma estratégia objetiva de desenvolvimento florestal: expandir rapidamente a base de eucalipto, atrair grandes indústrias e integrar produção florestal a um parque industrial moderno e voltado à exportação. Segundo o Plano Estadual de Desenvolvimento Sustentável de Florestas Plantadas, mais de 80% da demanda florestal do Estado do Mato Grosso do Sul é absorvida pela indústria de celulose, caracterizando um modelo de escala, especialização e forte ancoragem industrial.

Esse arranjo posicionou MS como polo de atração de investimentos, competindo diretamente com Minas Gerais.

Enquanto isso, Minas Gerais enfrenta um risco estrutural pouco debatido: produz muita madeira, mas não captura todo o seu valor econômico potencial. Parte relevante da matéria‑prima é industrializada fora do Estado ou exportada com baixo processamento, historicamente é conhecida a exportação de madeira para Estados vizinhos como Bahia, Espírito Santo e São Paulo

Se MG pretende sustentar sua liderança, precisa mudar o foco:  não basta ampliar área plantada; é necessário industrializar a madeira e reter valor.

Norte de Minas: o ponto de inflexão possível

A região apresenta um conjunto de fatores estratégicos:

  • ampla disponibilidade de terras;
  • vocação florestal;
  • necessidade de dinamização econômica;

Projetos industriais de grande porte — celulose, etanol de milho, madeira engenheirada e bioprodutos — podem redefinir o papel de Minas no setor florestal nacional.

Entretanto, os desafios não são simples. As variações climáticas observadas nos últimos anos evidenciaram fragilidades na produtividade dos plantios, reforçando a necessidade de desenvolver materiais genéticos mais resistentes e de adotar uma silvicultura mais adaptada às novas condições edafoclimáticas.

Aspectos relacionados a captação de água também merecem ser discutidos. Apesar da inserção na bacia do São Francisco e da presença de cursos d’água relevantes, o Norte de Minas enfrenta competição entre usos, limitações de outorgas são cruciais para a concepção de novos projetos de celulose.

Adicionalmente, gargalos associados à infraestrutura viária, à integração ferroviária e à distância dos principais corredores logísticos nacionais.

Como vantagem competitiva, o Norte de MG apresenta grandes extensões contínuas de terra e relevo predominantemente plano ou suavemente ondulado, favorável à mecanização florestal e à formação de bases produtivas em escala.

A solução exige abordagem integrada:

  • zoneamento técnico climático e hídrico;
  • materiais genéticos mais resilientes;
  • planejamento conjunto do projeto florestal e industrial;
  • investimentos coordenados em infraestrutura e logística.
  • Integração de iniciativas público e privadas

Quando articulados, esses fatores deixam de ser barreiras e tornam-se riscos gerenciáveis, ampliando a competitividade industrial.

O caminho adiante

O Mato Grosso do Sul mostrou o poder da escala industrial.  Minas Gerais, por sua vez, tem oportunidade de ir além, combinando escala com diversificação produtiva, maior distribuição territorial dos benefícios econômicos e fortalecimento de cadeias de maior valor agregado — diretrizes que já estão, inclusive, sinalizadas no Plano Estadual Agrícola de Florestas Plantadas (MINAS GERAIS; SEAPA, 2025).

O desafio está colocado. A liderança florestal de Minas Gerais não será mantida apenas pelo passado, nem exclusivamente pelo tamanho da área plantada, mas pela capacidade de transformar madeira em desenvolvimento econômico real, interno e duradouro.

Por fim, entre todos esses aspectos técnicos citados, vejo que um não pode ser esquecido: a cultura florestal do Estado. Isso é algo que precisa ser sempre exaltado, afinal muito já foi feito. A presença de universidades, empresas tradicionais e associações atuantes demonstram que Minas Gerais tem totais condições de se sustentar como expoente do nosso setor florestal nacional.