O Ministério Público Federal (MPF) pediu, na última terça-feira, 31, o arquivamento do inquérito criminal que investigava uma suposta invasão de servidores com o objetivo de desviar cerca de 70 mil e-mails da Eldorado Brasil, da J&F e da JBS.
O caso é um dos desdobramentos da longa disputa societária entre a holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista e a Paper Excellence pelo controle da empresa de celulose.
A investigação começou a partir de fatos ocorridos em junho de 2019, no auge do embate entre a J&F e a companhia controlada pelo empresário indonésio Jackson Wijaya. O inquérito foi aberto em Diadema (SP), e, depois de quase sete anos, o MPF concluiu que os elementos reunidos não sustentam a apresentação de denúncia.

De acordo com o órgão, as provas digitais apresentam “falhas graves” na cadeia de custódia desde o início da apuração. Laudos periciais elaborados por uma empresa contratada pela J&F e pelo Instituto de Criminalística de São Paulo apontaram divergências nos códigos hash dos arquivos analisados — sequência que funciona como uma espécie de impressão digital para garantir a autenticidade dos dados.
Segundo o MPF, essas inconsistências tornaram impossível atestar a integridade do material coletado. O inquérito apurava uma suposta invasão dos sistemas da empresa CTI NET Soluções em Conectividade e Informática, com sete pessoas indiciadas ao longo da investigação.
Outro ponto considerado crítico pelos procuradores foi a condução das buscas e apreensões. Representantes da J&F e da empresa Ventura Enterprise Risk Management, indicada pela holding, acompanharam os procedimentos policiais e ficaram responsáveis pela guarda dos dispositivos apreendidos.

Para o MPF, essa circunstância comprometeu a confiabilidade das provas. Diante desse cenário, o órgão concluiu que as dúvidas sobre a integridade do material são “insuperáveis”, o que inviabiliza o prosseguimento do caso na esfera criminal.
Disputa pela Eldorado começou depois de operação da J&F
A disputa pelo controle da Eldorado Brasil teve início em setembro de 2017, quando a J&F concordou em vender 49,41% da empresa à Paper Excellence por R$ 3,8 bilhões. O restante da participação seria transferido em até 12 meses, condicionado à liberação de garantias dadas pelos Batistas em empréstimos e dívidas da companhia.
O conflito começou no ano seguinte. A Paper alegou que a J&F impôs obstáculos para impedir a liberação das garantias e judicializou a questão antes do fim do prazo. A holding brasileira, por sua vez, sustentou que a rival recorreu à Justiça por não conseguir cumprir o contrato.

A transação também foi questionada no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em ação que discutia a possibilidade de empresas estrangeiras controlarem terras no Brasil. Ao longo dos anos seguintes, o caso se desdobrou em disputas no Tribunal de Justiça de São Paulo, no Superior Tribunal de Justiça e em arbitragem, além de tentativas de anulação e ameaças de levar o litígio a tribunais internacionais.
No meio da disputa, surgiu a denúncia de tentativa de acesso indevido a e-mails que teriam sido trocados entre advogados da J&F durante o processo arbitral — episódio que deu origem ao inquérito agora arquivado.
O impasse societário foi encerrado em maio de 2025, quando a Paper Excellence aceitou um acordo proposto pela J&F. A holding brasileira pagou US$ 2,64 bilhões à vista pelos 49,41% restantes e passou a deter 100% da Eldorado Brasil.






