Mudanças climáticas desafiam produtividade do eucalipto e exigem seleção de materiais adaptados

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Durante a transmissão ao vivo do lançamento do relatório da Expedição Silvicultura 2025, Otávio Campoe, da UFLA, mostrou como clima e genética influenciam o crescimento e a adaptação dos plantios

O aumento das temperaturas e as mudanças na disponibilidade de água já precisam fazer parte das decisões sobre onde plantar e quais materiais genéticos utilizar na silvicultura. Em Mato Grosso do Sul, uma das principais fronteiras de expansão florestal do país, análises apresentadas pelo professor Otávio Campoe, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), indicam aumento de aproximadamente 1 °C na média das temperaturas máximas nos últimos 25 anos.

Com base nas relações de crescimento observadas nos experimentos apresentados, Campoe explicou que esse aquecimento pode representar uma redução próxima de 4,5 m³/ha/ano no incremento médio anual (IMA) do eucalipto. O valor foi utilizado como uma referência média para dimensionar o efeito da temperatura, e não como uma perda uniforme em todos os plantios do estado.

O pesquisador participou, nesta quarta-feira, 21 de outubro, da apresentação dos resultados da Expedição Silvicultura 2025, transmitida pelo canal do Mais Floresta no YouTube. Na palestra, discutiu como a integração entre experimentos de campo, históricos climáticos e modelos pode ajudar a compreender a produtividade e preparar os plantios para condições mais desafiadoras.

Expansão leva plantios a ambientes mais exigentes

Campoe destacou que o avanço da produtividade florestal brasileira foi construído ao longo de décadas de colaboração entre empresas, universidades e instituições de pesquisa.

Esse esforço permitiu melhorar materiais genéticos e práticas de manejo. Entretanto, a expansão dos plantios para novas regiões acrescenta desafios de temperatura, disponibilidade hídrica e adaptação dos clones.

Segundo o professor, não basta reconhecer que o clima está mudando. É necessário identificar onde as alterações ocorrem, sua intensidade e seus efeitos sobre o crescimento das árvores.

Materiais selecionados em determinadas condições podem passar a enfrentar temperaturas menos favoráveis ao seu desenvolvimento. Por isso, o desempenho observado no passado precisa ser analisado junto às transformações ambientais.

Experimentos mostram interação entre genética e ambiente

Um dos projetos apresentados foi o TECHS, rede experimental que reuniu 36 sítios — 34 no Brasil e dois no Uruguai — e a participação de 26 empresas, sob coordenação do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF).

Os resultados mostraram diferenças de produtividade entre localidades e também entre clones cultivados em um mesmo ambiente.

Essa combinação evidencia que o potencial de um material genético depende das condições em que ele é plantado. Um clone de alto rendimento em uma região pode não apresentar o mesmo comportamento em outra, especialmente quando aumenta o estresse hídrico.

Para Campoe, compreender essa interação é fundamental para aprimorar o zoneamento dos materiais e orientar programas de melhoramento.

Histórico climático ajuda a dimensionar os riscos

A equipe apresentada pelo pesquisador utiliza séries climáticas de aproximadamente 60 anos para investigar padrões de temperatura, chuva e déficit hídrico.

Além das médias históricas, os estudos trabalham com probabilidades de ocorrência de determinadas condições. Essa abordagem permite avaliar tanto o comportamento mais frequente quanto a possibilidade de situações desfavoráveis ao crescimento.

A análise também integra informações de solo, como profundidade e textura, que influenciam a disponibilidade de água para as árvores.

Segundo Campoe, o déficit hídrico explica parte importante da variação de produtividade em muitas regiões produtoras, embora seu peso e sua relação com o crescimento não sejam iguais em todo o país.

O objetivo é distinguir os fatores que estão alterando o balanço hídrico, incluindo mudanças nas chuvas e aumento das temperaturas, para produzir diagnósticos específicos por região.

Tolerância à seca envolve escolhas no uso do carbono

Parte da palestra foi dedicada ao funcionamento das árvores e à forma como distribuem o carbono absorvido entre manutenção, reservas, folhas, galhos, raízes e madeira.

Campoe explicou que clones de alta produtividade e materiais tolerantes à seca podem apresentar estratégias diferentes nessa distribuição.

Em condições favoráveis, determinados materiais destinam uma parcela maior dos recursos à produção de madeira. Outros investem proporcionalmente mais em raízes, o que pode contribuir para suportar períodos de menor disponibilidade de água.

Essa estratégia pode limitar o volume produzido, mas favorecer a sobrevivência em ambientes mais secos. Assim, selecionar apenas pelo crescimento observado em condições favoráveis pode deixar de captar características importantes para a estabilidade dos plantios.

Os estudos também identificaram materiais capazes de ajustar sua distribuição de carbono conforme o ambiente. Em locais mais favoráveis, ampliam o investimento na parte aérea; sob maior restrição hídrica, aumentam proporcionalmente a destinação para raízes.

Características das folhas e raízes ajudam a explicar o desempenho

A investigação da tolerância à seca vai além da medição do volume de madeira.

Campoe citou características como profundidade e distribuição das raízes finas, estrutura dos vasos que transportam água, ângulo das folhas e tamanho e quantidade de estômatos — estruturas que regulam as trocas gasosas com a atmosfera.

A combinação desses atributos ajuda a explicar por que alguns materiais mantêm o crescimento ou sobrevivem em condições nas quais outros apresentam perdas mais intensas.

Segundo o pesquisador, esse conhecimento permite direcionar a seleção de materiais com maior precisão. A questão deixa de ser apenas identificar qual clone cresce mais e passa a incluir quanto ele pode produzir sob estresse e qual é seu risco de mortalidade.

Modelos simulam produtividade sob diferentes condições climáticas

As informações dos experimentos e dos estudos sobre o funcionamento das árvores estão sendo incorporadas a modelos de crescimento.

Uma das abordagens utiliza o histórico climático para simular rotações de sete anos em janelas móveis. Dessa forma, é possível comparar o desempenho estimado de plantios submetidos a diferentes sequências de condições meteorológicas.

O trabalho começou pelos locais dos experimentos do TECHS. A perspectiva apresentada é ampliar as análises para outros recortes territoriais, incluindo a escala municipal, e incorporar novos fatores, como classes de solo.

Em vez de oferecer apenas um valor médio de produtividade, a proposta é estimar a probabilidade de alcançar diferentes níveis de crescimento.

Campoe destacou que a qualidade dessas simulações depende da integração entre históricos consistentes, medições reais de campo e validação dos modelos. Nesse contexto, apontou a colaboração com a Canopy e os dados da Expedição Silvicultura como importantes para avançar nas análises.

Água precisa ser avaliada na escala da microbacia

Durante as perguntas do público, o professor também abordou a relação entre expansão dos plantios e disponibilidade hídrica.

Segundo Campoe, analisar o crescimento de um talhão não é suficiente para compreender os efeitos sobre a água na paisagem. Essa avaliação precisa considerar a escala da microbacia hidrográfica.

Ele citou uma colaboração entre os programas Eucflux e Promab, do IPEF, para integrar informações sobre produtividade, consumo de água e eficiência de uso dos recursos hídricos.

A proposta é aprofundar essa discussão com as empresas participantes, acompanhando a expansão florestal e suas implicações para o planejamento da paisagem.

Pesquisa colaborativa é condição para avançar

Ao encerrar, Campoe defendeu a ampliação das redes experimentais, a integração de bases de dados e a continuidade das medições em campo.

“A Expedição tem que ser um negócio de setor”, afirmou, ao destacar a importância de transformar a iniciativa em um esforço continuado de geração de conhecimento.

Na avaliação do pesquisador, a construção de florestas mais resilientes exige traduzir esse objetivo em ações concretas: testar materiais em diferentes ambientes, acompanhar seu desempenho e conectar os resultados aos padrões climáticos.

Ele também ressaltou a formação de profissionais como parte dessa agenda. Para lidar com a complexidade dos novos ambientes produtivos, o setor precisa de pessoas preparadas para interpretar informações e transformar pesquisa em decisões de manejo.

A palestra integrou a apresentação dos resultados da Expedição Silvicultura 2025, realizada pela Canopy Remote Sensing Solutions, pela Embrapa Florestas e pela Paulo Cardoso Comunicações, com o Mais Floresta como mídia oficial.

Quem não acompanhou a transmissão ao vivo pode assistir à gravação na íntegra no canal do Mais Floresta no YouTube. O relatório técnico completo da Expedição Silvicultura 2025 está disponível para download gratuito, com os dados, gráficos e análises do levantamento.