Artigo por Camila Telles
Sou produtora rural antes de qualquer outra coisa. E é por isso que eu não consigo ver a decisão que o Mato Grosso tomou este ano como “mais uma regra ambiental”. Para mim, é o setor de etanol arrumando a própria casa antes que a conta chegasse, e ela ia chegar.
Vou explicar o que está em jogo. Com número, sem torcida e com um cuidado que eu preciso ter até o fim, porque tem gente de verdade nessa história.
Um setor que virou gigante quase sem a gente perceber
Em pouco mais de uma década, o etanol de milho multiplicou sua produção por dez. Na safra 2025/26 foram 10,17 bilhões de litros, um salto de quase 30% em um único ciclo, o que já representa mais de um quarto de todo o etanol produzido no Brasil, segundo a Conab. E o Mato Grosso é o coração disso: hoje é o segundo maior produtor de etanol do país, atrás apenas de São Paulo.
É uma história bonita de inovação. Mas todo crescimento rápido carrega um ponto cego. E o desse setor se chama biomassa.
A parte que quase ninguém fora do setor enxerga
As usinas de etanol de milho não precisam só de milho. Elas precisam de energia para mover as caldeiras, e essa energia vem de madeira. Quando essa madeira é de reflorestamento, de eucalipto plantado para isso, ela é renovável, captura carbono enquanto cresce e dá ao etanol brasileiro uma das menores pegadas de carbono do mundo. Esse é o nosso diferencial diante do planeta.
O problema nunca foi a madeira
A pergunta que devemos fazer é: de onde uma parte dela está vindo?
Onde a lei e a prática se separaram
A regra existe, e é antiga. O Código Florestal, de 2012, no artigo 34, obriga grandes consumidores de matéria-prima florestal a manter um Plano de Suprimento Sustentável. Ou seja, a plantar o equivalente ao que consomem.
Só que, em 2022, uma norma estadual do Mato Grosso passou a admitir também o uso de biomassa vinda de supressão de vegetação nativa autorizada.
E aqui vou deixar claro o ponto que, para mim, é o mais importante do texto: o produtor que abre área dentro da lei e aproveita esse resíduo não é o vilão. Ele seguiu a norma. O que está em discussão é a decisão do setor industrial de se apoiar nessa fonte em vez de plantar a própria floresta. O Ministério Público do estado, inclusive, questionou a norma de 2022 por entender que ela contraria o artigo 34. Nas palavras da promotora do caso: “O Código Florestal veda. O Estado permite.”
Claro que o efeito prático apareceu nos números. Entre 2023 e 2024, segundo dados do IBGE, o fornecimento de biomassa de madeira nativa no estado subiu 97%, enquanto o de madeira reflorestada caiu 29%. Ou seja, quanto mais fácil ficou usar nativa, menos gente plantou floresta. O incentivo para a plantar secou e é isso que ameaça o futuro do setor.
A correção, e por que ela precisa cuidar de quem vive disso
Em 2026, depois de um inquérito aberto no fim do ano passado, o MP e o governo do estado assinaram um Termo de Compromisso Ambiental. Ele prevê a eliminação gradual da biomassa nativa, com proibição total a partir de 2035, exige que novos projetos comprovem abastecimento por floresta plantada ou manejo sustentável, e fixa a meta de expandir a floresta plantada até 700 mil hectares ou mais em 2040.
Vale pontuar que existe, sim, uma cadeia inteira que vive da madeira. O que o Mato Grosso está colocando em andamento é desenvolver o setor florestal, de forma organizada: gerar renda e emprego fornecendo madeira de silvicultura, que setores industriais de uso intensivo em biomassa podem utilizar, respeitando o Código Florestal Nacional. O prazo que ficou é plausível: nove anos de transição, tempo para se preparar e para plantar e crescer, já que o ponto de corte para o setor de etanol ocorre em seis anos. Dá para fazer, sem puxar o tapete de ninguém.
Mas, Camila, tu estás contra o produtor? É claro que não! Eu sou produtora. Estou do lado de quem faz certo, de quem planta, de quem investe, de quem constrói. E do lado de quem depende dessa cadeia hoje e precisa de tempo para se ajustar. Reputação, num mercado que exporta para o mundo, vale bilhões, e ela é de todo mundo que produz direito.
Isso não é briga política, é oportunidade (e é coletiva)
Preciso ser bem clara porque sei que esse tema divide opinião: isso aqui não é briga política. É oportunidade pura e simples.
A solução, mais uma vez, está dentro do próprio agronegócio. Está em plantar eucalipto. Quem produz combustível limpo, planta floresta e recupera solo degradado está cuidando da qualidade do produto e de seu potencial de mercado. É exatamente quem o mundo está procurando. E o Brasil está em condição de ser líder na transição global energética, desde que garanta a rastreabilidade de sua cadeia.
Como defensora do agro eu preciso salientar: esse é o momento de pensar junto. Usina, produtor, madeireiro, reflorestador, governo, todo mundo na mesma mesa. O mundo pede combustível de baixa emissão ao mesmo tempo que as pessoas pedem um agro que seja parte da solução. A gente entrega as duas coisas, mas só pensando de forma coletiva e no longo prazo, plantando desde agora a floresta que sustenta o setor inteiro e leva todo mundo junto. Tira o “proibir” e coloca “CONSTRUIR”. Esse é o caminho.
Por que isso importa muito além do Mato Grosso?
Porque o etanol brasileiro está sendo cortejado pelo mundo, para a gasolina em dezenas de países, pra aviação, pra navegação. Nosso passaporte nesse mercado é a baixa pegada de carbono. E não dá para vender combustível limpo com biomassa que veio de mata nativa. A conta não fecha nem no discurso, nem na planilha.
O Mato Grosso deu o passo certo. Agora precisa transformar o acordo em regra clara, rápido, e com o setor na mesa, para que todo mundo consiga se preparar. Porque floresta não se planta da noite para o dia.
E é um dos melhores negócios que o agro tem a oferecer.
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Fontes: Conab (produção e participação do etanol, safra 2025/26); Código Florestal — Lei nº 12.651/2012, art. 34; Ministério Público de Mato Grosso (TCA e inquérito); Arefloresta / IBGE (biomassa nativa x reflorestada); Cipem (cadeia florestal e empregos); Reuters e Forbes (metas do TCA e posições do setor).






