A madeira deixou de ser apenas matéria-prima para virar protagonista da transição energética nacional. No 2º BioComForest, especialistas mostraram por que o país tem uma posição privilegiada — e o que precisa fazer para não a desperdiçar.
Há quem ainda enxergue a madeira apenas como a matéria-prima de móveis, papel e construção. Mas, no Brasil de hoje, ela assumiu um papel muito mais estratégico: o de combustível da transição energética. E essa mudança de status não passou despercebida no 2º BioComForest, realizado na Unesp de Botucatu, onde um painel BIOMASSA: do campo à caldeira – os nós conceituais, estruturais e logísticos reuniu especialistas para discutir o futuro da biomassa na geração de energia térmica e elétrica.
Da produção no campo ao uso na caldeira, a biomassa percorre uma cadeia complexa, marcada por desafios conceituais, estruturais e logísticos. Entender esses nós é essencial para transformar potencial energético em eficiência, competitividade e sustentabilidade.
O primeiro a apontar essa transformação foi José Otávio Brito, professor sênior da Esalq-USP. Para ele, o valor econômico da madeira para energia, historicamente menor que o de outros usos, está crescendo — e, em algumas regiões do país, já compete com aplicações consideradas mais clássicas. Esse novo patamar, defendeu, exige atenção redobrada de toda a cadeia: mais tecnologia, formação de profissionais, regramentos e normatização dos materiais. “Uma atenção maior como um todo, começando em casa, na própria cadeia produtiva”, resumiu.

O desafio, porém, não é pequeno. Deodato Costa, diretor executivo da Fast Energy, alertou para uma demanda crescente e, muitas vezes, desorganizada. Esmagamento de grãos, indústrias de proteína — aves, suínos e bovinos — e a indústria alcooleira, que chega agora, disputam a mesma energia térmica. Sem integração entre oferta e procura, advertiu, o resultado são custos desnecessários e prejuízo para a indústria ou para o produtor.

A boa notícia é que o Brasil parte de uma posição de vantagem. Newton Duarte, presidente executivo da Cogen — Associação das Indústrias de Cogeração de Energia —, trouxe um dado revelador: cerca de 80% da cogeração brasileira é renovável, enquanto no mundo esse percentual é de apenas 10%, com 90% da matriz fóssil. “Temos sol, terras e água”, lembrou, destacando que o país produz biomassa adequada até às necessidades futuras e dá uma contribuição decisiva à transição energética.

Na ponta prática, Rogério Luiz de Matos, gerente de captação de reciclado da Eucatex, mostrou como o setor se organiza. A Eucatex Bioenergia nasceu como o braço da companhia no segmento de biomassa, e a transportadora Eucalog — que começou focada no reciclado — expandiu para a distribuição de produtos acabados. Com a demanda da unidade de Botucatu, a frota cresce a cada momento, consolidando a logística como elo essencial dessa cadeia.

A conclusão do painel é direta: o Brasil tem floresta, tecnologia e vocação para liderar a geração de energia limpa a partir da biomassa. Falta apenas organizar a cadeia para que essa vantagem se transforme em competitividade — e em energia para o país inteiro.
O BioComForest é uma realização da Paulo Cardoso Comunicações, com organização da FCA – Unesp de Botucatu e parceria da Florestar – Indústria Florestal Paulista. Quem quiser assistir ao vídeo completo das entrevistas pode acessar o link: https://youtu.be/gCUZvWztGTI
Redação Mais Floresta






