O uso de sopradores no combate a incêndios e em queimas prescritas: foco na segurança e eficiência

Por Anderson De Freitas e Silva

O Brasil possui grandes áreas de cobertura vegetal, incluindo unidades de conservação (UC), que são áreas protegidas por lei conforme o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído pela Lei nº 9.985/2000, e áreas plantadas voltadas para produção econômica, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico.

Todos os anos, muitas dessas áreas são afetadas por incêndios florestais, que causam devastação dos ecossistemas, impactando não apenas a vegetação, mas também o solo, a fauna, a atmosfera e os seres humanos. Além disso, há perdas econômicas significativas e impactos imensuráveis nos serviços ecossistêmicos.

O fogo, segundo Myers (2006), possui uma natureza dual, podendo ser benéfico ou prejudicial, dependendo do contexto. É considerado um dos principais responsáveis por impactos negativos nos ecossistemas florestais (SOARES et al., 2009), mas também pode ser uma ferramenta importante para a economia de populações rurais (LORENZON et al., 2018).

Essa dualidade é evidente nas unidades de conservação, onde coexistem o “fogo ruim”, dos incêndios florestais, e o “fogo bom”, relacionado às queimas prescritas no contexto do Manejo Integrado do Fogo (MIF). As queimas prescritas podem ter vários objetivos, incluindo a prevenção de grandes incêndios que causam impactos negativos ao ecossistema.

Incêndios de grande intensidade geram não apenas danos diretos, mas também efeitos negativos indiretos, como assoreamento e redução de cursos d’água, inundações e erosões, entre outros (SOARES et al., 2017), além das inestimáveis perdas de vidas humanas (DOMINGOS, 2005). Nesse contexto, a queima prescrita se destaca como uma importante ferramenta para a prevenção e o manejo do combustível vegetal (LORENZON et al., 2018).

Dessa forma, torna-se evidente a necessidade de estratégias que reduzam os impactos negativos dos incêndios. E o Manejo Integrado do Fogo (MIF) se apresenta como uma abordagem eficaz para esse fim, contribuindo também para desconstruir a ideia de que todo fogo em vegetação é necessariamente prejudicial.

Dentro do pilar manejo, são utilizados diversos equipamentos que auxiliam tanto na supressão de incêndios em vegetação quanto na realização de queimas prescritas dentro das ações de Manejo Integrado do Fogo (MIF).

Um desses equipamentos é o soprador, que funciona a partir da combustão de gasolina e óleo dois tempos, utilizando o deslocamento de ar para controlar ou suprimir as chamas e para limpeza de linhas de controle.

HISTÓRICO DO USO DO SOPRADOR

O uso de sopradores no combate a incêndios em vegetação possui registros de início em 2013, na Brigada1, uma brigada voluntária com mais de vinte anos de atuação, atualmente presente em oito municípios do estado de Minas Gerais, composta de mais de 300 integrantes entre mulheres e homens. O uso possui registros em vídeos postados a partir de 2015, que podem ser acessados em https://www.youtube.com/@andersondefreitasesilva-af780.

Ainda em 2013, o equipamento foi introduzido em quatro equipes contratadas em Minas Gerais e, em 2014, foi desenvolvido um treinamento técnico específico, voltado à mudança de paradigmas nos combates, com foco em segurança e eficiência.

Em 2016, os treinamentos foram ampliados para unidades de conservação estaduais por meio do PREVINCÊNDIO/IEF-MG e para o Parque Nacional da Serra da Canastra. Desde então, vêm sendo realizados treinamentos para diversas empresas, instituições governamentais e brigadas voluntárias de todo o Brasil.

Entre 2021 e 2024, a Rede Nacional de Brigadas Voluntárias (RNBV) apoiou a realização de sete treinamentos, capacitando cerca de 170 brigadistas de vários estados.

Em 2025, foi realizado treinamento em parceria com o PREVFOGO/IBAMA-MG e a Brigada1, núcleo de Belo Horizonte.

DESAFIOS NO USO DO SOPRADOR

Embora cada vez mais ampla a utilização e divulgação do soprador, seu uso nem sempre segue critérios adequados de segurança e eficiência. Isso pode comprometer as operações, aumentar os riscos e resultar em incidentes ou acidentes, inclusive com registros de queimaduras graves.

Outro problema recorrente é a especificação inadequada dos equipamentos. Sopradores de baixa potência, por exemplo, não garantem eficiência e expõem os brigadistas a riscos elevados. Além da potência, outros aspectos técnicos precisam ser considerados, pois muitas marcas não atendem aos critérios necessários para operações seguras e eficientes.

IMPORTÂNCIA DO TREINAMENTO

O uso eficaz do soprador depende diretamente de treinamento técnico especializado. Trata-se de um equipamento que, apesar de aparentemente simples, exige conhecimento específico e experiência prévia em combate a incêndios.

Por isso, recomenda-se a realização de treinamentos continuados, complementares à formação de brigadistas. Esses treinamentos contribuem para:

  • Aumentar a segurança nas operações;
  • Melhorar a eficiência no combate e nas queimas prescritas;
  • Reduzir impactos ambientais;
  • Diminuir custos operacionais e com manutenções.

CONCLUSÃO

Os sopradores são ferramentas altamente eficientes no manejo do fogo, tanto na supressão de incêndios quanto no apoio à execução de queimas prescritas. No entanto, seu uso de forma inadequada, sem treinamento técnico e especificação correta, pode comprometer a segurança dos brigadistas e a efetividade das operações.

Dessa forma, é fundamental investir na especificação correta dos equipamentos e na capacitação contínua das equipes. Somente com o uso técnico e responsável será possível maximizar os benefícios dessa ferramenta, garantindo maior segurança, eficiência e sustentabilidade no manejo do fogo.

Autor: Anderson De Freitas e Silva, Gestor Ambiental (UNA); Especialista em Incêndio Florestal (UFPR); Gerente de Fogo (PREVFOGO-IBAMA-MG-2018); Coordenador de brigadas de incêndios florestais (2010 a 2015); Voluntário da Brigada1 (de 2004); Instrutor colaborador eventual em formação de brigadas (PREVICÊNDIO/IEF-MG 2006 a 2024); Um dos idealizadores e conselheiro da RNBV – Rede Nacional de Brigadas Voluntárias; Proprietário da AFS Treinamento Ambiental (de 2016).

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