Oferta de madeira exige planejamento por idade dos plantios, produtividade e custos, aponta pesquisador da Embrapa

Durante a transmissão ao vivo do lançamento do relatório da Expedição Silvicultura 2025, José Mauro Moreira, da Embrapa Florestas, explicou como idade dos plantios, produtividade e custos influenciam o abastecimento

Uma região pode ter florestas plantadas e, ainda assim, enfrentar dificuldades para abastecer suas indústrias. Também pode registrar excesso de madeira mesmo com produtividade baixa. A diferença está na combinação entre área, idade dos plantios, manejo, custos e demanda — fatores que precisam ser analisados em conjunto para compreender a oferta regional.

Essa foi a principal mensagem de José Mauro Moreira, pesquisador da Embrapa Florestas na área de economia e planejamento florestal, durante a apresentação dos resultados da Expedição Silvicultura 2025, nesta quarta-feira, 21 de outubro, com transmissão pelo canal do Mais Floresta no YouTube.

Na palestra “Produtividade, oferta de madeira e planejamento florestal: implicações dos resultados da Expedição”, Moreira explicou como as informações levantadas pela iniciativa podem apoiar decisões de produtores, empresas e formuladores de políticas públicas.

“Podemos utilizar esses dados para orientar não só a política pública de expansão de base florestal, mas de necessidade de investimento em assistência técnica e extensão rural também”, afirmou.

Entre plantar e abastecer o mercado, há um intervalo de anos

O primeiro desafio do planejamento florestal é o tempo. Uma decisão de ampliar os plantios em resposta a preços atrativos leva anos para se transformar em madeira disponível para comercialização.

Nesse intervalo, o mercado pode mudar. Novas indústrias podem elevar o consumo, outros produtores podem ampliar a oferta e os custos de produção e transporte podem alterar a viabilidade dos empreendimentos.

Segundo Moreira, essa característica limita a capacidade de responder rapidamente a mudanças expressivas da demanda. Por isso, o planejamento precisa considerar tanto as condições atuais quanto a distribuição da produção ao longo dos próximos anos.

Também é necessário diferenciar os mercados consumidores. Madeira destinada à serraria, à celulose ou à energia não apresenta, necessariamente, as mesmas características nem proporciona o mesmo rendimento em diferentes usos.

Para uma serraria, por exemplo, o diâmetro das toras interfere no aproveitamento industrial. Na geração de energia, o teor de umidade influencia a quantidade de energia obtida. Essas exigências ajudam a definir o manejo e a área necessários para atender cada demanda.

Produtividade define quanto uma área pode entregar

Moreira destacou que a produtividade precisa ser expressa considerando quantidade produzida, área e tempo. Informar apenas o volume de madeira por hectare, sem indicar quantos anos foram necessários para produzi-lo, não permite comparar adequadamente os resultados.

O indicador é fundamental para dimensionar os plantios. Quanto maior a produtividade, menor pode ser a área necessária para atender determinado consumo, desde que a madeira apresente as características exigidas pelo comprador.

O regime de manejo também altera essa relação. Em uma mesma área, diferentes estratégias podem produzir quantidades distintas dos sortimentos procurados pela indústria, como toras de maior diâmetro para serraria.

Assim, estimar a necessidade de hectares exige primeiro conhecer a demanda: quanto será consumido, com quais características e em que momento.

Antecipar a colheita muda a oferta presente e futura

O preço pode modificar a programação de corte e, consequentemente, a disponibilidade de madeira ao longo do tempo.

Como exemplo, Moreira citou uma floresta planejada para ser colhida aos sete anos. Se o mercado estiver favorável, o produtor pode decidir cortar aos seis ou até aos cinco anos para aproveitar a oportunidade comercial.

A decisão pode elevar a rentabilidade naquele momento, mas significa colher em uma idade de menor produtividade. Além disso, antecipa uma madeira que estava prevista para abastecer o mercado nos anos seguintes.

“Eu não só altero a oferta deste ano, como altero a oferta futura de madeira”, explicou.

O movimento contrário também ocorre. Diante de preços pouco atrativos, o produtor pode adiar a colheita. Dessa forma, a oferta de uma região depende tanto do estoque existente quanto das decisões econômicas tomadas por quem controla esse estoque.

Área por classe de idade é informação essencial

Para manter o abastecimento anual, é necessário distribuir os plantios entre diferentes idades. Um hectare não entrega madeira todos os anos: passa por um período de crescimento até atingir o momento de colheita.

Esse ordenamento permite que diferentes áreas sejam cortadas sucessivamente, sustentando a oferta ao longo do tempo.

Segundo Moreira, os dados públicos agregados de área plantada, produção e valor da produção ajudam a caracterizar o setor, mas não oferecem todo o detalhamento necessário para prever a disponibilidade regional de madeira.

Sem conhecer a área por classe de idade, estimativas de capacidade de abastecimento podem depender da hipótese de uma floresta equilibrada, com plantios distribuídos de forma regular ao longo do ciclo. Na prática, concentrações de plantio em determinados anos podem gerar períodos de excesso ou de escassez.

Para o pesquisador, uma base mais completa deve reunir área plantada por idade, região e rotação, além de produtividade e custos regionalizados de produção e transporte.

A distinção entre primeira rotação e condução por rebrota também contribui para estimativas mais precisas, pois essas condições podem apresentar desempenhos diferentes.

Transporte e condições de colheita influenciam o preço recebido

A existência de madeira próxima de uma indústria não garante que ela será vendida para esse consumidor. Se outro mercado oferecer uma remuneração que compense o transporte, o produtor pode direcionar a produção para uma região mais distante.

Por isso, Moreira defendeu que a análise da oferta considere a localização dos compradores, o volume consumido, as características exigidas e os preços pagos pela madeira entregue.

Na avaliação do pesquisador, acompanhar apenas o preço da madeira em pé pode dificultar comparações. Duas propriedades vizinhas podem receber valores diferentes por causa do relevo, das condições das estradas e dos custos de colheita e transporte.

Mesmo quando essas operações são executadas pelo comprador, seus custos influenciam o valor que chega ao produtor.

O levantamento do preço no consumidor, associado ao conhecimento dos custos para entregar a madeira, pode ajudar a tornar essa formação de valor mais compreensível.

Expansão simultânea pode pressionar o mercado anos depois

Moreira também alertou para o risco de decisões de investimento baseadas exclusivamente no preço observado no momento do plantio.

Quando muitos produtores ampliam suas áreas durante uma fase de demanda elevada, essas florestas podem chegar à idade de corte em períodos próximos. Se o consumo não acompanhar o crescimento da oferta, os preços podem recuar.

O efeito pode atingir especialmente os empreendimentos com custos elevados ou maior distância dos consumidores. Uma atividade que parecia viável com preços excepcionais pode deixar de cobrir seus custos quando o mercado se ajusta.

A frustração, por sua vez, pode levar à redução dos investimentos em manejo, à decisão de não reformar os talhões ou à saída da atividade. Anos depois, essa retração pode contribuir para uma oferta menor, sobretudo se coincidir com crescimento da demanda.

O pesquisador ressaltou que o excesso de oferta não depende apenas de alta produtividade. Uma grande quantidade de áreas de baixo rendimento, plantadas e colhidas no mesmo período, também pode pressionar o mercado, com resultados econômicos desfavoráveis para os produtores.

Maior previsibilidade pode reduzir a percepção de risco

Na análise apresentada, compreender melhor a formação da oferta regional pode ajudar a reduzir desequilíbrios e oscilações acentuadas de preços.

Isso não significa eliminar as variações de mercado, mas oferecer referências mais consistentes para decisões de plantio, manejo, colheita e investimento industrial.

Moreira relacionou essa previsibilidade à percepção de risco por produtores e agentes financiadores. Como o cultivo florestal tem retorno de longo prazo, o custo do capital exerce forte influência sobre sua rentabilidade.

Uma base de informações mais detalhada pode, portanto, contribuir para a avaliação dos empreendimentos e para decisões de financiamento mais bem fundamentadas.

Expedição pode orientar expansão e assistência técnica

Para Moreira, a contribuição da Expedição Silvicultura está na integração entre observações em campo, confirmação da área plantada e estimativas de crescimento e produtividade.

Essas informações permitem avançar na identificação de regiões com situações distintas: locais que precisam ampliar os plantios, áreas onde a prioridade é melhorar a produtividade e mercados com possibilidade de excesso de oferta.

Em regiões com área suficiente, mas baixo desempenho produtivo, assistência técnica e extensão rural podem aumentar a produção sem exigir expansão territorial. Onde a base é insuficiente para o consumo previsto, os dados podem apoiar o estímulo a novos plantios.

Já em situações de concentração da oferta, o planejamento pode avaliar ajustes no ritmo de implantação e no calendário de colheita, respeitando as condições de cada empreendimento.

A proposta é transformar o diagnóstico em decisões adequadas à realidade regional, conectando produtividade, abastecimento industrial e retorno econômico para quem produz.

Quem não acompanhou a transmissão ao vivo pode assistir à gravação na íntegra no canal do Mais Floresta no YouTube. O relatório técnico completo da Expedição Silvicultura 2025 está disponível para download gratuito, com os dados, gráficos e análises do levantamento.