Quando produzir exigiu aprender a conservar

Uma das raízes mais importantes da ideia moderna de sustentabilidade não surgiu de um movimento ambientalista. Surgiu de um problema muito mais concreto: faltava madeira.

No início do século XVIII, a Saxônia dependia intensamente desse recurso. A mineração e a metalurgia precisavam de madeira para diferentes usos, do escoramento das minas à produção de carvão vegetal, enquanto outras atividades econômicas também pressionavam as florestas. O consumo aumentava e garantir o abastecimento tornava-se uma preocupação econômica.

Foi nesse ambiente que Hans Carl von Carlowitz publicou, em 1713, Sylvicultura Oeconomica, obra que se tornaria uma referência na história da ciência florestal. Seu problema era essencialmente prático: como continuar utilizando um recurso indispensável sem comprometer sua disponibilidade no futuro?

Sua resposta não foi defender o fim da exploração das florestas. Era necessário continuar utilizando madeira, mas de uma maneira que não destruísse a própria possibilidade de utilizá-la no futuro. Carlowitz tratou de conservação, cultivo, regeneração e uso continuado das florestas e empregou uma formulação posteriormente associada ao conceito de Nachhaltigkeit, sustentabilidade. A floresta começava a ser pensada não apenas pelo estoque existente, mas também por sua capacidade de continuar produzindo ao longo do tempo.

Carlowitz

Essa diferença muda bastante a maneira de compreender a origem florestal da sustentabilidade. Uma floresta cresce em um ritmo diferente daquele imposto pelas necessidades imediatas da economia. Se a retirada ultrapassa continuamente sua capacidade de renovação, em algum momento falta matéria-prima para a própria atividade que depende dela. O limite não estava simplesmente em utilizar a floresta, mas em utilizá-la sem consumir a base da produção futura.

Carlowitz não ficou apenas nesse princípio. Ao longo da obra, discute medidas práticas relacionadas ao plantio, à regeneração natural e artificial, à escolha de espécies, à organização das áreas e ao controle da exploração. A continuidade do abastecimento exigia intervenção, conhecimento e planejamento.

Há outro aspecto da obra que merece atenção: não bastava produzir mais madeira; era preciso desperdiçar menos. Carlowitz critica o uso ineficiente do recurso, inclusive nas atividades minerárias, e considera formas de melhorar seu aproveitamento, racionalizar o consumo e buscar substituições quando possíveis. A escassez, portanto, não decorria apenas da quantidade disponível na floresta. Também dependia da maneira como aquilo que havia sido retirado era utilizado.

Essa preocupação amplia o argumento. Se uma atividade econômica utiliza menos matéria-prima para produzir o mesmo resultado, reduz também a pressão necessária para manter seu abastecimento. A sustentabilidade aparece, assim, tanto na capacidade de reposição do recurso quanto na eficiência com que ele é utilizado.

Carlowitz também atribuía importância à organização do uso das florestas e ao planejamento de longo prazo. A exploração desordenada não colocava em risco apenas as árvores existentes, mas atividades econômicas que dependiam continuamente delas. A floresta deixava de ser tratada como uma reserva aparentemente inesgotável e passava a exigir gestão.

Não se deve transportar diretamente para 1713 todo o significado que a palavra sustentabilidade adquiriu nos séculos seguintes. O conceito contemporâneo tornou-se muito mais amplo, incorporando dimensões ambientais, sociais e econômicas que não estavam organizadas dessa maneira em Sylvicultura Oeconomica. Também seria excessivo apresentar Carlowitz como o inventor isolado da sustentabilidade. Sua importância está em ter sistematizado, no campo florestal, uma ideia que teria enorme influência: utilizar continuamente um recurso exige respeitar as condições que permitem sua renovação.

Esse princípio é familiar à Engenharia Florestal até hoje. Um plano de manejo trabalha com uma questão que Carlowitz já precisava enfrentar há mais de trezentos anos: como utilizar a floresta hoje sem eliminar sua capacidade de continuar existindo e produzindo no futuro. Mudaram o conhecimento científico, as técnicas, as exigências ambientais e a própria compreensão das funções da floresta, mas permanece a necessidade de compatibilizar uso e continuidade.

Por isso, colocar produção de um lado e sustentabilidade do outro cria uma oposição que a própria história florestal do conceito ajuda a questionar. O problema nunca foi simplesmente escolher entre usar ou não usar um recurso. Importam a intensidade, o tempo, a reposição e até a eficiência com que aquilo que foi retirado será aproveitado.

Carlowitz escrevia sobre madeira, mineração e abastecimento. Seu problema era garantir que uma atividade econômica não consumisse as próprias condições de que dependia para continuar funcionando. Mais de trezentos anos depois, essa ainda é uma boa maneira de entender por que sustentabilidade e produção não precisam estar em lados opostos.

Cícero Ramos, engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).