Setor de papel e celulose prevê R$ 105 bilhões em investimentos até 2028

A indústria brasileira de papel e celulose combina um ciclo de investimentos de longo prazo com um cenário mais desafiador para as exportações em 2026. Depois de alcançar recordes de produção e vendas externas no ano passado, o setor sentiu os efeitos do protecionismo e da desorganização das cadeias globais de suprimento no primeiro semestre deste ano. Ainda assim, novos projetos industriais, ganhos de produtividade e a busca por produtos de maior valor agregado sustentam os planos de expansão.

Dados consolidados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) indicam que a produção nacional de celulose alcançou o recorde de 29,4 milhões de toneladas em 2025, crescimento de 6,9% em relação ao ano anterior. As exportações também atingiram o maior volume da série histórica, com 20,7 milhões de toneladas enviadas ao exterior, avanço de 11,6%.

Em valores, porém, as exportações de todo o setor de árvores cultivadas somaram US$ 14,9 bilhões em 2025, queda de 4,8% na comparação anual, influenciada principalmente pelos preços internacionais. A indústria respondeu por 8,8% das exportações do agronegócio brasileiro e ocupou a quinta posição na pauta de vendas externas do agro.

Os resultados mais recentes mostram uma mudança no ambiente internacional. No primeiro semestre de 2026, a produção de celulose permaneceu praticamente estável, em 13,9 milhões de toneladas, enquanto as exportações recuaram 10,5%, para 9,4 milhões de toneladas. Em valores, as vendas externas de celulose totalizaram US$ 5,2 bilhões, redução de 4%. Considerando todo o setor de árvores cultivadas, as exportações caíram 5,9%, para US$ 7,5 bilhões.

A desaceleração conjuntural ocorre durante um período de ampliação da capacidade produtiva. As empresas do setor projetam R$ 105 bilhões em investimentos até 2028, destinados a novas fábricas, modernização de unidades, manejo florestal e infraestrutura logística.

Uma das principais vantagens competitivas do Brasil está na combinação entre as condições climáticas e a eficiência da silvicultura. O ciclo de rotação do eucalipto no País varia entre seis e sete anos, período inferior aos 15 a 20 anos exigidos por espécies cultivadas em regiões do Hemisfério Norte. Esse crescimento mais rápido aumenta a produtividade por hectare e contribui para a redução dos custos de produção.

A cadeia opera sob um modelo de integração vertical intensivo em capital. O processo começa na produção de mudas e no manejo florestal, passa pelo cozimento da madeira para a extração da celulose e chega ao branqueamento e à secagem do insumo, destinado à exportação ou à transformação no mercado interno.

Na indústria de papel, a matéria-prima abastece segmentos como o de papéis sanitários, que inclui itens higiênicos e descartáveis; papéis e cartões para embalagens; e produtos destinados à escrita e impressão.

Mato Grosso do Sul, conhecido como Vale da Celulose, concentra parte relevante dos novos empreendimentos, favorecido pela expansão das florestas cultivadas e pela instalação de grandes unidades industriais. Também há projetos no Espírito Santo, na Bahia e no Paraná.

A Suzano, maior produtora mundial de celulose de fibra curta, lidera esse movimento com a maturação de grandes projetos e previsão de despesas anuais de capital, conhecidas pela sigla Capex, entre R$ 10,9 bilhões e R$ 13,3 bilhões. A companhia também busca ampliar sua presença internacional na conversão da celulose em produtos acabados.

A Klabin, que atua nos segmentos de celulose, papéis e embalagens, tem ampliado a participação das embalagens em seus resultados. Essa área responde por cerca de 60% do Ebitda da companhia — indicador que mede o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização —, reduzindo sua exposição direta às oscilações do preço da celulose negociada para entrega imediata.

A Eldorado Brasil, por sua vez, amplia a eficiência de suas operações florestais e logísticas no Centro-Oeste e mantém acordos de fornecimento de madeira para aproveitar sua capacidade industrial.

A energia é outro componente importante da competitividade. Segundo a Ibá, 90% da energia consumida pelo setor vem de fontes renováveis. Muitas fábricas de celulose são autossuficientes e algumas vendem excedentes para a rede de distribuição. Parte dessa energia é gerada com o licor negro, coproduto do cozimento da madeira durante a fabricação da celulose.

A infraestrutura de transporte também integra os investimentos do setor. Ferrovias, terminais portuários e outras estruturas dedicadas conectam as unidades industriais aos mercados externos e ajudam a reduzir limitações no escoamento da produção.

Ao mesmo tempo, a indústria procura ampliar as aplicações da celulose para além dos produtos tradicionais. Entre as possibilidades estão embalagens biodegradáveis, nanocelulose para aplicações industriais e farmacêuticas, resinas, produtos bioquímicos e fibras têxteis, como viscose, modal e liocel.

A capacidade de combinar escala produtiva, eficiência florestal e desenvolvimento de produtos de maior valor agregado deverá determinar até que ponto o novo ciclo de investimentos conseguirá ampliar a posição do Brasil para além da exportação de celulose como matéria-prima.

Fonte:
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO