O Brasil possui 10,5 milhões de hectares de florestas plantadas, que geram R$ 240 bilhões em receita e mais de 2 milhões de empregos diretos e indiretos, segundo o Relatório Anual da Ibá de 2024. É um setor pouco conhecido fora do agronegócio e com uma vantagem competitiva que poucos países no mundo conseguem replicar: o ciclo de produção florestal no Brasil é de duas a três vezes mais curto do que nos Estados Unidos, no Canadá e nos países nórdicos. Esse diferencial não é apenas vocação natural. É resultado de décadas de investimento em ciência, melhoramento genético de clones e tecnologia desenvolvida por empresas e instituições de pesquisa brasileiras.
O tema foi debatido no painel “Os protagonistas do novo Brasil: empresas que colocam as onças no mapa”, durante a terceira edição internacional do Brazilian Regional Markets (BRM Nova York), evento promovido pela Apex no Harvard Club de Nova York, nesta segunda-feira, 11 de maio. Uma empresa capixaba levou esse argumento ao palco: a Emflora, fundada em 1991 em São Mateus, no norte do Espírito Santo, atua em gestão florestal e silvicultura com operação em 8 estados, 15 unidades e mais de 3 mil colaboradores diretos, atendendo clientes como Suzano, Vale, Petrobras e Gerdau.
Para Jacimar Zanelato, Diretor de Operações da Emflora, esse setor opera num modelo que nada tem de extrativista. “É um setor que implanta florestas e essas implantações são planejadas. A mata nativa é conservada, áreas degradadas são recuperadas e essas florestas, em grande parte, são certificadas e auditadas por organismos internacionais como a FSC o que garante uma floresta ecologicamente correta, socialmente justa e economicamente viável”, explica. A certificação FSC é o padrão internacional que comprova que a produção respeita critérios ambientais, sociais e econômicos rigorosos e que abre mercado para os produtos derivados em países com exigências crescentes de rastreabilidade.
O que já existe na cadeia industrial que depende dessa base florestal vai além do que a maioria imagina. Zanelato destaca que as plantas de celulose modernas no Brasil não entregam simplesmente celulose. “Elas entregam nanocelulose, biopolímeros naturais, produtos que substituem derivados de matérias-primas fósseis na fabricação de plásticos, fármacos e tecidos. As plantas de celulose atualmente têm um portfólio de produtos que comprovam o quanto de valor agregado foi possível colocar nessa cadeia onde a floresta é a base”, afirma.
Além da celulose, a cadeia inclui siderurgia movida a carvão vegetal renovável, painéis de madeira para construção civil e combustíveis renováveis, todos setores com demanda crescente por florestas plantadas. A bioeconomia, mercado com potencial estimado em R$ 30 trilhões até 2050, está sendo construída agora, silenciosamente, a partir de empresas que atuam há décadas sem aparecer nos holofotes.
Para Zanelato, três gargalos limitam o quanto desse potencial o Brasil vai conseguir capturar. O primeiro é mão de obra, que na visão da empresa será resolvido com tecnologia, a Emflora investe continuamente em automação e desenvolvimento de implementos florestais para consumo próprio. O segundo é segurança jurídica, sem a qual projetos de longo prazo ficam travados. O terceiro, e talvez o mais estrutural, é o custo e o perfil do capital disponível. “A floresta exige capital paciente. A estrutura de capital no Brasil ainda é muito orientada a curto prazo e taxas altas”, aponta. São projetos de 10, 15, 20 anos e o mercado financeiro brasileiro ainda não aprendeu, em escala, a financiá-los com a paciência que eles exigem.
Na abertura do BRM, Fernando Cinelli, fundador e presidente da Apex, apresentou a tese central do evento: o Renascimento do Brasil. O argumento parte de uma distorção concreta. Enquanto as cadeias produtivas que alimentam o país cresceram descentralizadas nas últimas décadas no agronegócio, na energia, na logística, nas empresas familiares, a infraestrutura do mercado de capitais permaneceu concentrada no eixo Rio–São Paulo. “O Brasil real vai muito além do tradicional mercado financeiro. Isso gerou uma assimetria estrutural: enquanto a economia brasileira crescia descentralizada, o mercado de capitais permanecia centralizado”, afirmou Cinelli.
A tese se apoia em quatro pilares. O político: a América Latina vive nova onda de reposicionamento, com avanço de governos de direita e centro-direita. O geopolítico: neutro num mundo em conflito, o Brasil se posiciona como destino de capital de países que buscam fornecedores politicamente amigáveis e sustentáveis. O cíclico: o conflito no Oriente Médio favorece países produtores de commodities e para o Espírito Santo, segundo maior produtor de petróleo do Brasil, o PIB estadual pode crescer 1,83% adicionais com o barril sustentado acima de US$ 100, segundo projeção apresentada por Ricardo Frizera, sócio-diretor da Apex. E o estrutural: o agronegócio brasileiro cresceu mais de 430% em produtividade nos últimos 34 anos, responde por 49% das exportações nacionais e o Brasil, com apenas 2% do PIB mundial, produz 11% da capacidade alimentícia do planeta.
O setor florestal está no coração dessa tese. É bioeconomia com mais de 30 anos de história, certificação internacional, tecnologia de ponta e capacidade de entrega testada ao longo de mudanças de moeda, crises globais e alternâncias de governo. O que falta, como disse Zanelato em Nova York, não é vocação nem competência. É capital paciente e a disposição de contar essa história para quem ainda não a conhece.






