Durante a transmissão ao vivo do lançamento do relatório da Expedição Silvicultura 2025, Daniel Cintra, da Ibá, apresentou indicadores do setor e perspectivas para expansão, conservação e biotecnologia
A produção brasileira de celulose alcançou 29,4 milhões de toneladas em 2025, com crescimento de 7% sobre o ano anterior. O resultado integra um cenário de expansão industrial e de investimentos previstos de R$ 76,5 bilhões no setor de árvores cultivadas, apresentado por Daniel Cintra, especialista em políticas florestais e sustentabilidade da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).
Durante a apresentação dos resultados da Expedição Silvicultura 2025, nesta quarta-feira, 21 de outubro, Cintra reuniu indicadores econômicos, produtivos e ambientais do relatório anual da entidade. A transmissão foi realizada pelo canal do Mais Floresta no YouTube.
Segundo os números apresentados, o setor registrou receita bruta de R$ 249,4 bilhões e exportações de US$ 14,9 bilhões em 2025. A base de árvores cultivadas chegou a 10,73 milhões de hectares, enquanto a estimativa de áreas conservadas pelo setor alcançou 7,15 milhões de hectares.
Para Cintra, os resultados demonstram a capacidade de manter produção, empregos e investimentos mesmo em um ambiente internacional marcado por tensões geopolíticas e protecionismo econômico.
Celulose sustenta protagonismo internacional
O Brasil ocupa a segunda posição entre os maiores produtores mundiais de celulose, atrás dos Estados Unidos, e lidera as exportações do produto, conforme os dados apresentados pela Ibá.
A China recebe quase metade da celulose exportada pelo país, seguida pelos mercados europeu e norte-americano.
Cintra explicou que a produção reúne diferentes tipos de fibra e aplicações industriais. A fibra curta, associada principalmente ao eucalipto, é utilizada em produtos como papéis de impressão e papéis sanitários. Já a fibra longa, proveniente principalmente do pinus, contribui para a resistência de papéis e embalagens.
A combinação dessas matérias-primas permite ajustar características dos produtos conforme as necessidades de uso.
Além da celulose, o palestrante destacou o Brasil como maior produtor mundial de carvão vegetal, com consumo predominantemente interno e forte ligação com a siderurgia. Minas Gerais concentra a maior parte dessa produção.
Investimentos reforçam expansão no Centro-Oeste
A carteira de investimentos apresentada por Cintra soma R$ 76,5 bilhões e inclui novos projetos industriais de celulose em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul.
A ampliação da capacidade industrial ajuda a explicar o crescimento dos plantios em regiões que precisam formar uma base de suprimento para os próximos ciclos produtivos.
O Centro-Oeste foi apontado como a principal fronteira recente de expansão das árvores cultivadas. Segundo a apresentação, a região respondeu por 88% do crescimento no recorte dos últimos quatro anos utilizado pela Ibá, com destaque para Mato Grosso do Sul.
O movimento contrasta com a maior estabilidade das áreas de estados tradicionais, como Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Em Mato Grosso, Cintra destacou outro vetor: a demanda por madeira para fins energéticos. Nesse caso, a expansão está ligada ao abastecimento de operações industriais que utilizam biomassa, enquanto os grandes projetos de celulose impulsionam principalmente o avanço sul-mato-grossense.
A proximidade com novos consumidores também abre oportunidades em áreas de estados vizinhos, desde que as condições de produção e logística permitam atender à demanda de forma competitiva.
Base plantada reúne diferentes cadeias produtivas
Dos 10,73 milhões de hectares de árvores cultivadas no Brasil, aproximadamente 8,3 milhões são de eucalipto e 1,9 milhão, de pinus. Os demais cultivos e sistemas integrados completam a base nacional.
Cintra ressaltou que a produção florestal abastece cadeias que vão além do papel, alcançando embalagens, produtos de madeira, energia e aplicações em outros segmentos industriais.
Segundo os indicadores apresentados, o setor gera 2,8 milhões de empregos diretos e indiretos. Nas indústrias e nos processos produtivos, 92% da energia consumida é proveniente de fontes renováveis.
O palestrante também destacou a taxa de reciclagem de papel de 60,4% no Brasil, apresentada como um dos indicadores da circularidade dessa cadeia.
Conservação integra o planejamento da paisagem
A estimativa de 7,15 milhões de hectares conservados foi apresentada como parte da contribuição ambiental do setor.
Cintra explicou que o planejamento em mosaicos combina áreas produtivas com vegetação nativa. Essa organização pode favorecer a conexão entre habitats, o fluxo gênico, a proteção de nascentes e a formação de corredores ecológicos.
Nos monitoramentos realizados pelas empresas associadas à Ibá, foram registradas mais de oito mil espécies de fauna e flora nas áreas do setor. Desse conjunto, 335 são ameaçadas de extinção, segundo os dados apresentados.
O especialista destacou a conservação como um componente do planejamento florestal e da manutenção da biodiversidade nas paisagens produtivas.
Indicadores de produtividade exigem atenção à metodologia
Na discussão sobre produtividade, Cintra apresentou o indicador médio de 34,5 m³/ha/ano divulgado pelo anuário da Ibá. Ele ressaltou, porém, que a metodologia da entidade é diferente da utilizada pela Canopy na Expedição Silvicultura.
Por isso, os números não devem ser tratados como medidas diretamente equivalentes nem como evidência, por si só, de aumento ou queda de produtividade.
As diferenças regionais também refletem a interação entre material genético, condições de solo e clima e práticas de manejo. Para novas fronteiras de plantio, Cintra defendeu pesquisas que permitam identificar materiais adequados às condições locais.
O ganho de produtividade pode ampliar a produção em uma mesma área, contribuindo para o chamado efeito poupa-terra. Entretanto, alcançar esse resultado exige combinar seleção genética, conhecimento do ambiente e manejo.
Biotecnologia é aposta para enfrentar desafios climáticos
Na avaliação de Cintra, o próximo salto de produtividade dependerá da integração entre melhoramento convencional e novas biotecnologias.
Entre as ferramentas mencionadas estão a seleção genômica, que pode ajudar a identificar precocemente características de interesse, e a edição gênica, com potencial para alterações específicas no DNA das plantas.
O objetivo vai além de produzir mais madeira. Os programas de melhoramento precisam reunir produtividade, tolerância à seca, resistência a pragas e doenças e qualidade da matéria-prima.
O especialista relacionou essa demanda aos eventos climáticos extremos e aos desafios sanitários enfrentados pelos plantios. A adaptação dos materiais genéticos às condições de cultivo foi apontada como uma das prioridades para sustentar a competitividade do setor.
A apresentação integrou a programação da Expedição Silvicultura, iniciativa realizada pela Canopy Remote Sensing Solutions, pela Embrapa Florestas e pela Paulo Cardoso Comunicações, com o Mais Floresta como mídia oficial.
Quem não acompanhou a transmissão ao vivo pode assistir à gravação na íntegra no canal do Mais Floresta no YouTube. O relatório técnico completo da Expedição Silvicultura 2025 está disponível para download gratuito, com os dados, gráficos e análises do levantamento.





