Construção em madeira engenheirada é uma das alternativas para enfrentar o déficit habitacional de 5,9 milhões de moradias no país

Águia Florestal faz pré-lançamento de Tiny House durante Lignum Latin America com foco na construção industrializada

O Brasil ainda enfrenta um desafio habitacional de grandes proporções, que chega a 5,9 milhões de domicílios, mostrando a necessidade de ampliar a oferta de moradias e, ao mesmo tempo, buscar sistemas construtivos capazes de combinar produtividade, custo, qualidade e menor impacto ambiental.
É nesse cenário que a construção industrializada baseada em madeira engenheirada ganha espaço. Ao transferir parte significativa da produção para o ambiente fabril, o sistema permite maior controle sobre materiais e processos, reduz etapas no canteiro e possibilita a fabricação de componentes que chegam à obra preparados para a montagem. Quando associada à madeira proveniente de florestas plantadas e ao aproveitamento de resíduos industriais, a tecnologia aproxima eficiência construtiva e sustentabilidade.
Essa é uma das propostas apresentadas pela empresa paranaense Águia Florestal durante a 6ª Lignum Latin America, realizada de 15 a 17 de setembro em Curitiba. A empresa apresentou seu Sistema Construtivo, o CLT Águia Florestal, baseado em painéis de CLT (Cross-Laminated Timber) construídos com tecnologia exclusiva, e fez o pré-lançamento de uma Tiny House de 24 m², desenvolvida para demonstrar as aplicações da madeira engenheirada em projetos residenciais.
O estande reforçou o posicionamento da empresa como integradora de toda a cadeia: manejo florestal, indústria e inovação. A Águia Florestal fornece a matéria-prima, a madeira estrutural, enquanto parceiros entram com componentes complementares: a Rewood com a parte de estrutura e a Saint-Gobain com soluções específicas para acabamento.

Da floresta para a construção

A experiência internacional da empresa, que há décadas fornece madeira estrutural de qualidade para a construção civil nos Estados Unidos, contribuiu para ampliar a percepção sobre as possibilidades de aplicação do material. “Exportamos madeira para a construção civil, que constrói residências de alto padrão, e queremos propor esse sistema também para o Brasil”, conta Álvaro Luiz Scheffer, CEO da Águia Florestal.
A experiência europeia com o CLT também chamou a atenção do executivo. O sistema utiliza camadas de pequenos pedaços de madeira – que iriam para queima – posicionadas de forma cruzada e coladas, formando painéis estruturais que podem ser empregados em paredes, pisos e coberturas. Para Scheffer, porém, havia um desafio para adaptar essa tecnologia à realidade brasileira: o custo e, principalmente, o aproveitamento da matéria-prima disponível.
A empresa encontrou uma possibilidade justamente nos itens de madeira que, pelas dimensões ou características, não tinham aproveitamento em determinados produtos. Em vez de serem encaminhados para a geração de energia, eles passaram a ser utilizados na produção do CLT Águia. “Depois de ter tido todo o esforço de plantar a árvore, fazer o desbaste naquela floresta, podar, serrar, secar e aplainar, não fazia sentido desperdiçar essa matéria-prima para gerar energia. Foi então que decidimos criar um produto a partir disso com a tecnologia já existente na Europa”, relata Scheffer.
O processo desenvolvido em sua fábrica em Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná, utiliza peças curtas e de medidas irregulares para produzir os painéis. A proposta transforma material que anteriormente teria menor aproveitamento em um produto estrutural de maior valor agregado. “Nosso produto é entregue para a realização do sonho das pessoas com uma tecnologia que não se compara às casas de madeira convencionais, porque as residências em CLT trazem conforto térmico e acústico aos moradores, proteção contra fogo, além de muitas outras vantagens econômicas”, afirma Scheffer.

Sustentabilidade começa no aproveitamento

Um dos diferenciais do modelo apresentado pela Águia está justamente na integração entre floresta, indústria e construção. A matéria-prima utilizada pela empresa é proveniente de florestas plantadas e manejadas, enquanto o processo produtivo potencializa o aproveitamento da madeira.
Para a construção civil, a utilização da madeira também abre uma frente relacionada à redução das emissões de carbono associadas aos materiais convencionais, além de permitir o armazenamento de CO2 na própria estrutura enquanto o produto permanecer em uso. Os benefícios ambientais, porém, dependem de fatores como origem da madeira, manejo florestal, durabilidade, projeto, transporte e ciclo de vida da edificação.

Tiny House mostra aplicação prática

A Tiny House apresentada pela Águia Florestal funciona como uma demonstração em escala real dessa proposta. Com 24 m², a unidade é produzida industrialmente e chega pronta para instalação. De acordo com a empresa, no local são necessários o içamento e o posicionamento da casa, que possui infraestrutura elétrica para conexão à rede.
A proposta prevê alternativas para além da moradia, incluindo turismo, hospedagem e situações emergenciais. No modelo apresentado na Lignum, o cliente pode definir diferentes opcionais, enquanto a unidade-base é produzida em fábrica.
Para Scheffer, a construção industrializada em madeira pode ser replicada em diferentes regiões, considerando as particularidades de cada mercado. “Cada uma das regiões do país enfrenta desafios diferentes, mas a construção industrializada com madeira é uma possibilidade de negócio para todos”, afirma.
O movimento coloca a madeira engenheirada no debate sobre o futuro da construção civil brasileira. Em um país que precisa ampliar a oferta habitacional e, simultaneamente, propor solução para a falta de mão de obra, bem como reduzir desperdícios e impactos ambientais, a combinação entre floresta plantada, engenharia, fabricação industrial e montagem fora do canteiro de obra cria uma alternativa que pode ser incorporada a diferentes modelos de construção.