Florestas para biomassa: produtividade, genética e tecnologia no centro da nova era do setor

O setor florestal brasileiro vive um momento de transformação. De um lado, desafios históricos pressionam a produtividade; de outro, a ciência e a tecnologia abrem caminhos para uma silvicultura mais eficiente, adaptada e sustentável. Esse foi o tom dos debates realizados no primeiro dia do 2º BioComForest, evento realizado em 28 de julho na Unesp de Botucatu, que reuniu especialistas para debater os gargalos e as oportunidades que definirão o futuro das florestas plantadas para biomassa no país.

O diagnóstico: por que a produtividade caiu?

O primeiro ponto levantado é preocupante e direto: o Brasil vem registrando, historicamente, uma redução da produtividade florestal. O fenômeno não tem uma causa única — é o resultado de uma combinação de fatores que se acumulam.

Para Marlon Rosa, COO do Grupo Innovatech, as condições climáticas adversas aparecem como protagonistas, agravadas nos últimos anos por um problema crescente: o aumento na quantidade e na severidade de pragas, que têm comprometido diretamente o rendimento das áreas plantadas.

Marlon Rosa

Mas há um terceiro fator, muitas vezes negligenciado: a mão de obra. A qualidade da floresta está diretamente ligada às pessoas que executam o plantio e as operações florestais — e a escassez de trabalhadores qualificados no campo vem se tornando um entrave real.

“A qualidade da floresta está diretamente ligada à mão de obra utilizada para o plantio e para todas as operações florestais. A escassez de mão de obra qualificada vem trazendo dificuldade e acaba impactando não só na qualidade como na produtividade florestal.” — Marlon Rosa, COO do Grupo Innovatech

Segunda rotação: o potencial adormecido da biomassa

Quando o assunto é biomassa, Raul Chaves, diretor da Populus Consultoria, defende uma mudança de mentalidade. Enquanto o setor de celulose consolidou o modelo de ciclos de uma única rotação, a biomassa abre espaço para uma estratégia mais ousada: a segunda rotação.

Segundo o especialista, essa é uma possibilidade real — e necessária — para ampliar o aproveitamento das áreas. Mais do que isso, ele destaca a urgência de testar novos materiais e diferentes espécies em regiões que ainda carecem de informação.

Raul Chaves

“É importante que a gente tenha a preocupação de testar, pesquisar, entender como é que funciona. Para conseguir ter efetivamente produtividades boas e materiais genéticos bem adaptados à região.” — Raul Chaves, diretor da Populus Consultoria

Com o desenvolvimento do Brasil se interiorizando, saindo do litoral em direção a novas fronteiras, muitas dessas áreas seguem pouco estudadas — e a recomendação é clara: investir em pesquisa e validar materiais genéticos bem adaptados a cada região.

Alta densidade: a chave para a eficiência energética

No coração da produção de biomassa está uma característica técnica decisiva: a densidade básica elevada da madeira. O setor demanda muita energia e vapor, e madeiras de alta densidade reduzem o consumo específico nas caldeiras — ou seja, menos metros cúbicos de madeira para gerar a mesma energia.

É exatamente nesse ponto que Edimar Scarpinati, diretor da Una Florestal, concentra sua análise. O trabalho da empresa é focado no melhoramento genético de espécies de alta densidade, que também sejam tolerantes ao estresse hídrico e a outros estresses abióticos — com o objetivo de levar materiais superiores para áreas até então não exploradas com eucalipto.

Edimar Scarpinati

“O que a Una trabalha é no melhoramento genético dessas espécies de alta densidade, tolerantes ao estresse hídrico. O nosso foco é realmente em materiais de alta densidade, focando em áreas até então não exploradas com madeira de eucalipto.” — Edimar Scarpinati, diretor da Una Florestal

A revolução silenciosa da tecnologia

José Maria Mendes, conselheiro da Vinci Lacan Florestal, celebra a evolução das ferramentas que transformaram a silvicultura nas últimas décadas. O que antes era feito “no papel e lápis” hoje conta com computadores, laptops e dispositivos móveis que auxiliam na tomada de decisão e no planejamento.

A mecanização também avançou de forma acelerada: operações que exigiam máquinas separadas hoje são realizadas em uma única passada, com três ou quatro operações combinadas no mesmo equipamento. E, no lugar das poucas sementes nacionais — muitas vezes importadas —, a genética nacional evoluiu para materiais muito mais otimizados.

José Maria Mendes

A mensagem final é de otimismo com os pés no chão: a tecnologia é uma aliada poderosa, mas seu papel é auxiliar — e o objetivo permanece o mesmo de sempre: produzir mais floresta, mais biomassa, com mais eficiência.

“Essas ferramentas te auxiliam em como produzir mais floresta, como produzir mais biomassa.” — José Maria Mendes, conselheiro da Vinci Lacan Florestal

O 2º BioComForest foi uma realização da Paulo Cardoso Comunicações. Para assistir às entrevistas na íntegra, clique nesse link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=0HsiDWgtqEU.

Redação Mais Floresta