O que explica a liderança agrícola de Mato Grosso?
A resposta costuma envolver tecnologia, escala produtiva e gestão eficiente. Tudo isso é verdadeiro. Mas há outra base, menos visível, que também ajuda a explicar esse resultado: água, clima, solos e vegetação nativa.
Quando pensamos em produção agrícola, é comum imaginar máquinas, sementes melhoradas, fertilizantes e técnicas de plantio. É o que se vê dentro da propriedade. Mas nenhuma lavoura funciona isolada do território ao redor.
Ela depende da água, das chuvas, das temperaturas e das condições do solo. Nesse contexto, florestas e outras formações de vegetação nativa deixam de ser apenas uma questão ambiental e passam a ter relação direta com a produção.
Florestas e árvores participam da regulação do clima e do ciclo da água, ajudam a conservar os solos e oferecem serviços como polinização, ciclagem de nutrientes e controle de pragas. Não são processos distantes da produção: fazem parte das condições que a tornam possível.
Mato Grosso reúne em seu território três biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal. É principalmente em áreas da Amazônia e do Cerrado que se concentra a produção agrícola do estado, aproximando grandes áreas produtivas de extensas formações de vegetação nativa. Essa configuração pode ser observada em municípios como Sinop, Cláudia, Santa Carmem, Vera, União do Sul e Feliz Natal, onde áreas produtivas e vegetação nativa compõem uma mesma paisagem.
Mesmo uma agricultura altamente tecnificada não escapa dessa dependência. Chuvas irregulares, altas temperaturas e processos de degradação do solo podem aumentar riscos e custos. A tecnologia ajuda a lidar com esses desafios, mas não elimina a dependência do ambiente.
Essa relação tem respaldo científico. O relatório Climate and Ecosystem Service Benefits of Forests and Trees for Agriculture, publicado em 2025 pela FAO, pelo Stockholm Environment Institute, pela Conservation International e pela The Nature Conservancy, reúne evidências de como florestas e árvores influenciam temperatura, chuvas, disponibilidade de água, fertilidade do solo, polinização e controle de pragas, com efeitos diretos sobre a agricultura.
Segundo dados de uso e ocupação do solo divulgados pelo IMEA, 60,4% do território de Mato Grosso é composto por vegetação nativa remanescente. Áreas produtivas, urbanas e outros usos somam 39,6%.
É um dado relevante: uma das maiores produções agropecuárias do país convive, no mesmo território, com ampla cobertura de vegetação nativa.
Isso ajuda a enxergar a questão de outra forma, além da oposição entre produzir e conservar. Em um território agrícola, conservar os processos ligados à água, ao solo e ao clima também significa contribuir para as condições que sustentam a produção.
Voltemos à pergunta inicial: o que explica a liderança agrícola de Mato Grosso?
Tecnologia, investimento, conhecimento e gestão eficiente são parte da resposta. Mas essa estrutura depende de água, ocorre sobre solos, enfrenta variações climáticas e convive com grandes áreas de vegetação nativa.
A tecnologia amplia a capacidade de produzir. Os ecossistemas ajudam a manter as condições que tornam essa produção possível. Entender essa relação será cada vez mais importante para o futuro da produção no estado.
Produção e conservação fazem parte do mesmo sistema.
Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).





