Paracel avança rumo à primeira fábrica de celulose do Paraguai e projeta 7 mil empregos diretos

Considerado o maior investimento privado da história do Paraguai, o projeto da Paracel entra em uma nova fase com o início das obras de infraestrutura do polo industrial que abrigará a primeira fábrica de celulose do país. Após sete anos de desenvolvimento contínuo nas áreas florestal, logística e industrial, a companhia afirma estar exatamente no ponto planejado para avançar rumo à implantação da unidade industrial.

Em entrevista exclusiva ao Mais Floresta, Flavio Deganutti, CEO da Paracel, detalhou os próximos passos do empreendimento, os impactos econômicos já observados no norte do Paraguai, os diferenciais competitivos do projeto e o legado que a companhia pretende construir para as próximas décadas.

Flavio Deganutti

Nova etapa do projeto

Segundo Flavio Deganutti, os últimos sete anos foram dedicados à construção das bases que permitirão a implantação da primeira fábrica de celulose do Paraguai.

Todas as plantações operam sob certificação FSC, enquanto mais de 80 mil hectares são destinados à conservação ambiental. Nessas áreas, foram identificadas mais de 1.300 espécies de fauna e flora nativas, além da implementação de corredores biológicos conectados aos parques nacionais da região.

A preparação industrial também já avançou significativamente. A empresa concluiu as obras de adequação do terreno que receberá a futura fábrica de celulose e construiu uma estrutura de alojamento com capacidade para mais de 2 mil pessoas durante a fase de construção do complexo industrial.

Recentemente, o BID Invest aprovou um financiamento de US$ 165 milhões destinado à construção da infraestrutura do polo industrial, incluindo porto fluvial, linhas de transmissão de energia, acessos viários e sistemas logísticos.

De acordo com o CEO, a próxima etapa prevê a conclusão dessa infraestrutura e o início da construção da fábrica de compensados da Sudati, previsto para 2027, com operações programadas para 2028. Paralelamente, a Paracel seguirá avançando na implantação da primeira fábrica de celulose do Paraguai, projetada para produzir 1,8 milhão de toneladas anuais.

Transformação econômica já em curso

Embora a fábrica ainda não esteja em operação, a empresa destaca que os impactos econômicos já são perceptíveis na região de Concepción.

Deganutti informa que mais de US$ 1,5 bilhão já foram investidos no Paraguai em atividades florestais, infraestrutura, programas socioambientais e preparação do sítio industrial.

Como reflexo desse movimento, a arrecadação tributária do departamento de Concepción cresceu 153% desde a chegada da companhia, enquanto o número de micro, pequenas e médias empresas formalizadas aumentou 102%.

Atualmente, mais de 1.200 pessoas trabalham diretamente para a empresa, sendo cerca de 70% oriundas do departamento de Concepción. A companhia ressalta que muitos desses trabalhadores estavam anteriormente na informalidade.

As projeções para o futuro são ainda mais expressivas. A expectativa é que o polo industrial gere aproximadamente 7 mil empregos diretos.

Somente a chegada da Sudati ao polo industrial representa um investimento adicional de US$ 215 milhões e a geração de mais de 2 mil empregos diretos e indiretos.

Sustentabilidade como base do negócio

A empresa afirma que a sustentabilidade é um elemento central da estratégia de longo prazo.

Entre as iniciativas adotadas está o MATES (Microplanejamento Ambiental Técnico Econômico Social), ferramenta própria utilizada para definir o equilíbrio entre áreas produtivas e áreas de conservação, considerando critérios ambientais, sociais e econômicos.

Outro destaque é o Programa de Monitoramento e Modelagem de Microbacias Hidrográficas, que acompanha os impactos do manejo florestal sobre os recursos hídricos durante todo o ciclo produtivo.

Além da certificação FSC, a Paracel segue os Princípios de Desempenho IFC em questões ambientais e sociais e utiliza a norma ISO 26000 como referência para responsabilidade social.

Deganutti destaca ainda que a Paracel monitora anualmente seu balanço de emissões de gases de efeito estufa e trabalha atualmente na certificação de créditos de carbono em mecanismos reconhecidos internacionalmente.

No campo social, a empresa mantém 14 programas voltados às comunidades de sua área de influência. Somente em 2025, mais de 22 mil pessoas foram beneficiadas por iniciativas relacionadas ao acesso à água, energia, saúde, educação, segurança alimentar e infraestrutura. Nos últimos quatro anos, os investimentos socioambientais ultrapassaram US$ 5 milhões.

Flavio Deganutti

Polo industrial atrai novos investimentos

Segundo Flavio Deganutti, o polo industrial foi concebido desde o início para receber múltiplas empresas e impulsionar o desenvolvimento industrial da região de forma integrada.

A infraestrutura planejada, incluindo porto, sistemas de energia, logística e tratamento, foi projetada para utilização compartilhada por futuros empreendimentos.

Entre os atrativos destacados estão a disponibilidade de energia renovável, a logística fluvial pela hidrovia Paraguai-Paraná, uma base florestal certificada em expansão e os benefícios tributários proporcionados pelo regime de zona franca.

A companhia acredita que esses fatores criam um ambiente altamente competitivo para a instalação de novas indústrias ligadas à cadeia florestal e de transformação.

Vantagens competitivas para o mercado global

Questionado sobre os diferenciais que podem posicionar o Paraguai entre os grandes produtores mundiais de celulose, Flavio Deganutti aponta uma combinação de fatores naturais, logísticos e econômicos.

O primeiro deles é a elevada produtividade florestal proporcionada pelo clima e pelos solos paraguaios, que permitem ciclos de crescimento mais rápidos do eucalipto em comparação com diversas regiões do mundo.

Outro destaque é a logística integrada. A companhia conta com uma base florestal compacta e conectada, reduzindo distâncias de transporte, além de acesso direto à hidrovia Paraguai-Paraná por meio de porto próprio.

Deganutti também cita as condições tributárias da zona franca, os custos florestais competitivos, a disponibilidade de mão de obra e a estrutura de custos favorável como fatores que fortalecem a viabilidade econômica do projeto.

“Não competimos apenas por preço. Competimos com um modelo altamente competitivo e sustentável que poucos lugares do mundo conseguem oferecer em conjunto”, afirma.

Celulose de eucalipto para atender à demanda global

A futura fábrica produzirá BEKP (Bleached Eucalyptus Kraft Pulp), ou celulose branqueada de fibra curta de eucalipto.

Trata-se atualmente do tipo de celulose mais demandado no mercado internacional, amplamente utilizado na fabricação de papéis tissue, embalagens cartonadas e materiais biodegradáveis.

Com capacidade projetada de 1,8 milhão de toneladas anuais, a planta colocará o Paraguai pela primeira vez no mapa global da indústria de celulose.

Legado para o Paraguai

Para Flavio, o principal legado da Paracel será demonstrar que uma empresa pode atuar como agente de transformação territorial.

O executivo afirma que o objetivo é promover um desenvolvimento capaz de combinar geração de empregos formais, fortalecimento das cadeias produtivas locais, melhoria das condições de vida das comunidades e conservação ambiental.

Nesse contexto, a futura fábrica de celulose representa mais do que um investimento industrial. Para a companhia, trata-se de um projeto capaz de impulsionar uma transformação econômica estrutural no norte do Paraguai e consolidar o país como um novo protagonista da indústria florestal na América do Sul.