“Áreas maiores possuem mais espécies”. Essa é uma das leis mais inquestionáveis da ecologia, que justifica por que grandes áreas naturais costumam receber maior prioridade em estratégias de conservação. Em paisagens fragmentadas, essa lógica também levou os pequenos fragmentos florestais a serem vistos como ambientes de menor valor para a biodiversidade.
Mas seria possível aumentar o número de espécies em um fragmento florestal sem aumentar o seu tamanho?
Nosso estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que sim. Quando o entorno é favorável, pequenos fragmentos florestais podem abrigar muito mais espécies de aves do que seria esperado com base apenas no seu tamanho.
Paisagens florestais fragmentadas
As paisagens florestais modificadas por atividades humanas são formadas por fragmentos florestais de diferentes tamanhos cercados por outros tipos de ambientes, coletivamente chamados de matriz. Essa matriz pode ser terrestre, como pastagens para gado, lavouras e áreas urbanas, ou aquática, como os reservatórios de usinas hidrelétricas.
Além da matriz, o entorno dos fragmentos também pode incluir vegetação arbórea, como árvores espalhadas, mata ciliar e outros fragmentos próximos. Juntos, a matriz e a vegetação arbórea formam o entorno dos fragmentos florestais.
A contribuição do entorno
Para entender o papel do entorno, reunimos dados de quase 2 mil espécies de aves registradas em mais de mil remanescentes florestais tropicais e subtropicais, distribuídos por 50 paisagens em 17 países nas Américas, África e Ásia. O estudo comparou fragmentos florestais cercados por matrizes terrestres modificadas pela pecuária, agricultura e urbanização com ilhas florestais formadas por reservatórios de hidrelétricas.
As ilhas de reservatórios representam um cenário extremo de fragmentação devido à hostilidade ecológica da matriz. Ao compará-las com fragmentos florestais cercados por matrizes terrestres, conseguimos medir o quanto a mudança da matriz (de água para terra) pode aumentar o número de espécies de aves em florestas do mesmo tamanho.
Utilizando imagens de satélite, nós também calculamos a quantidade de vegetação arbórea ao redor dos remanescentes florestais para diferentes distâncias que variaram entre 50 e 2 mil metros. Isso nos permitiu identificar até que distância da floresta o incremento de vegetação arbórea exerce sua maior contribuição para as espécies de aves.
A melhoria do entorno aumenta o número de espécies

Fragmentos cercados por matrizes terrestres tiveram mais espécies do que ilhas de reservatórios. Essa diferença no número de espécies aumenta à medida que a área do fragmento diminui. Por exemplo, um fragmento florestal de 1 hectare pode ter mais do que o dobro de espécies do que ilhas do mesmo tamanho.
A quantidade de vegetação arbórea ao redor dos remanescentes florestais também importa. Tanto em fragmentos quanto em ilhas, mais árvores no entorno – especialmente dentro de um raio de 300 metros – significaram menos extinções locais. O benefício é ainda maior para aves dependentes de floresta, que são as mais sensíveis à fragmentação florestal.
Como o ambiente é percebido pelas espécies
As aves que vivem em fragmentos florestais não estão necessariamente confinadas ao seu interior. Quanto menos hostil for a matriz e maior for a quantidade de vegetação arbórea na vizinhança, mais espécies poderão se movimentar entre fragmentos e se alimentar de recursos disponíveis na matriz, como insetos e néctar de flores.

A capacidade de voar das aves não garante livre movimentação na matriz e entre áreas de floresta. Algumas espécies adaptadas a viver sob o ambiente sombreado da floresta tendem a evitar a exposição a ambientes abertos. Além disso, muitas espécies se deslocam pelo interior da floresta sem a necessidade de realizar grandes voos. Por isso, até mesmo estradas de chão podem limitar a movimentação de aves entre fragmentos vizinhos.
A movimentação das aves na paisagem é importante porque fragmentos florestais onde espécies foram localmente extintas podem voltar a abrigá-las, vindas de outros fragmentos. Para que esse processo de recolonização ocorra, são necessárias duas condições: as espécies devem ser capazes de atravessar a matriz e deve haver fragmentos próximos ou vegetação arbórea ao longo do caminho, como árvores espalhadas e matas ciliares, que facilitem a movimentação entre fragmentos mais distantes.

O entorno é mais importante para os fragmentos pequenos
Em fragmentos grandes, as espécies encontram alimento, abrigo e espaço suficientes para sobreviver. Já em fragmentos pequenos, o espaço e os recursos podem ser insuficientes para sustentar várias populações de aves. Porém, quando as aves conseguem usar recursos fora do fragmento e alcançar outras áreas de floresta, elas passam a utilizar uma área maior do que os limites do fragmento. É por isso que os fragmentos pequenos com entorno favorável são capazes de abrigar mais espécies.
E a maioria dos fragmentos florestais é pequena. As paisagens florestais fragmentadas nas regiões tropicais e subtropicais são compostas, em sua imensa maioria, por fragmentos pequenos. Na Mata Atlântica da América do Sul, 80% dos fragmentos florestais são menores que 5 hectares. Isso quer dizer que a biodiversidade precisa contar com um entorno favorável para garantir sua sobrevivência nas pequenas florestas que sobraram.
Implicações para a conservação
Pequenos aumentos de vegetação arbórea dentro de um raio de 300 metros dos fragmentos podem reduzir significativamente a perda de espécies. Isso significa que ações locais podem gerar ganhos reais para a biodiversidade: plantar árvores, restaurar matas ciliares, recuperar áreas degradadas e ampliar sistemas agroflorestais – como plantações de café e cacau – podem tornar paisagens produtivas mais favoráveis à vida silvestre.
Em um mundo onde habitats naturais continuam encolhendo, essa é uma mensagem de esperança.
A proteção de florestas e outros habitats naturais é e continuará sendo a estratégia central para a conservação da biodiversidade. Contudo, o que nosso estudo mostra é que a conservação não precisa parar nos limites das florestas. Ao combinar proteção das florestas com melhoria do entorno, estaremos aumentando o valor de conservação dos fragmentos florestais, especialmente dos pequenos, que são os mais comuns em paisagens modificadas por atividades humanas.
Tamanho é crucial, mas não é tudo: o que está do lado de fora do fragmento florestal também determina quantas espécies vivem dentro dele.
Fonte: The Conversation







