A expansão da cadeia da celulose está modificando o mercado de trabalho em municípios do interior de Mato Grosso do Sul antes mesmo de novos grandes empreendimentos industriais entrarem em funcionamento. Em Água Clara e Santa Rita do Pardo, o crescimento das áreas de florestas plantadas aumenta a necessidade de trabalhadores para diferentes atividades e cria uma nova demanda por qualificação profissional, desde funções de entrada no campo até postos técnicos ligados à operação e manutenção de máquinas.
O movimento começa muito antes de a madeira chegar à indústria. A cadeia tem início na produção das mudas, passa pelos viveiros, plantio, manejo e colheita das florestas e envolve transporte, manutenção, logística, controle de qualidade e prestação de serviços. Cada etapa precisa de mão de obra e abre espaço para auxiliares de campo, operadores de máquinas, motoristas, mecânicos, eletricistas, técnicos florestais e profissionais de outras áreas relacionadas à produção.
Em municípios pequenos, o impacto de algumas dezenas de contratações pode ser significativo. Água Clara tinha população estimada em aproximadamente 17,9 mil habitantes em 2025, enquanto Santa Rita do Pardo possuía pouco mais de sete mil moradores. Nessas cidades, a abertura de uma turma de qualificação ou de um processo seletivo pode representar uma oportunidade direta para dezenas de famílias.
O governador Eduardo Riedel, do Progressistas e candidato à reeleição, sustenta que um dos principais desafios é fazer com que o crescimento da atividade resulte em oportunidades principalmente para os moradores das próprias regiões onde os investimentos estão sendo realizados. A avaliação apresentada pelo governador é de que a expansão econômica precisa caminhar ao lado da formação profissional para permitir que a população local tenha condições de ocupar as vagas criadas.
Água Clara e Santa Rita do Pardo fazem parte do Vale da Celulose, denominação criada em 2025 para reunir municípios de Mato Grosso do Sul diretamente relacionados ao crescimento da cadeia florestal. A região inclui 12 cidades consideradas estratégicas pela presença de produção florestal, investimentos industriais, infraestrutura, logística e geração de empregos.
A criação do Vale da Celulose colocou a qualificação profissional entre os pontos ligados ao desenvolvimento da região. A proposta é aproximar investimentos, produção, logística e preparação de trabalhadores, principalmente diante do avanço de uma atividade que utiliza máquinas cada vez mais modernas e exige profissionais especializados.
Em Água Clara, um processo seletivo realizado no ano passado anunciou 20 oportunidades para auxiliares de campo. Em Santa Rita do Pardo, outra seleção abriu 53 vagas destinadas a atividades relacionadas ao campo, operação e qualidade. Embora os números sejam pequenos diante dos investimentos bilionários associados ao setor de celulose, eles possuem peso diferente quando observados dentro da realidade dos municípios.
Para um trabalhador que depende de serviços temporários ou atividades ocasionais, uma contratação formal pode representar mudança importante na renda familiar. Também pode significar a possibilidade de permanecer no município de origem, sem precisar procurar emprego em cidades maiores ou mudar de Estado.
Mato Grosso do Sul já possui aproximadamente 1,8 milhão de hectares de florestas plantadas. Água Clara concentra uma parcela expressiva dessa área e está entre os municípios brasileiros com forte presença da atividade florestal. Santa Rita do Pardo também acompanha esse avanço, com aumento da participação da silvicultura em sua economia.
A expansão do eucalipto cria uma cadeia de trabalho que vai muito além do plantio. Nos viveiros, profissionais participam da produção, seleção e preparação das mudas. No campo, equipes realizam o plantio, acompanham o crescimento das árvores, executam manejo e trabalham na colheita. Em paralelo, mecânicos e eletricistas são necessários para manter máquinas e equipamentos funcionando.
Também existe demanda por trabalhadores envolvidos com transporte, logística, segurança, controle de qualidade e atividades administrativas. À medida que a cadeia cresce, outros setores das cidades podem ser movimentados, entre eles alimentação, comércio, oficinas, manutenção de veículos, hospedagem e prestação de serviços.
Riedel afirma que a atividade florestal movimenta a economia antes mesmo da inauguração das fábricas, justamente porque a preparação das áreas, o plantio, a manutenção das florestas e a logística já exigem trabalhadores, equipamentos e serviços.
A abertura de vagas, entretanto, representa apenas uma parte do desafio. A permanência do trabalhador no emprego e a possibilidade de construir uma carreira dentro do setor aparecem como pontos importantes para que o crescimento econômico produza efeitos duradouros nas cidades.
Os números do mercado de trabalho ajudam a mostrar essa situação. Água Clara registrou 6.279 admissões e 6.371 desligamentos em 2025, encerrando o período com saldo negativo de 92 empregos formais. Santa Rita do Pardo contabilizou 1.754 contratações e 1.755 desligamentos, ficando praticamente em equilíbrio entre trabalhadores admitidos e desligados.
Esses números correspondem ao conjunto das atividades econômicas dos municípios e não apenas ao setor florestal. Ainda assim, mostram uma movimentação intensa de trabalhadores entrando e saindo dos empregos ao longo do ano.
A rotatividade possui impacto direto na vida das famílias. A estabilidade profissional interfere na capacidade de organizar despesas, assumir financiamentos, planejar compras, investir na educação dos filhos e construir projetos de médio e longo prazo.
Por isso, a qualificação ganha importância não somente como uma forma de conseguir a primeira vaga, mas também como instrumento para permanecer no mercado e avançar profissionalmente. Um trabalhador que começa como auxiliar de campo pode, mediante formação e experiência, buscar uma função de operador de máquinas, manutenção, supervisão ou atividade técnica.
Riedel defende que o crescimento se torna mais consistente quando o trabalhador consegue iniciar em uma atividade básica, receber capacitação e avançar profissionalmente sem precisar abandonar a cidade onde vive.
A necessidade de qualificação aumenta à medida que as operações florestais se tornam mais mecanizadas. Máquinas utilizadas no plantio, manejo e colheita exigem operadores preparados, enquanto os equipamentos precisam de manutenção preventiva, reparos e acompanhamento técnico.
Em Água Clara, o MS Qualifica ofereceu cursos de Ajudante de Campo e Viveiro e Fundamentos de Mecânica de Manutenção de Máquinas Agrícolas. As capacitações fizeram parte de uma programação estadual com 88 turmas destinadas a 1.420 trabalhadores de 27 municípios, envolvendo investimento próximo de R$ 3 milhões.
A formação procura aproximar o conteúdo ensinado das necessidades encontradas diretamente nas empresas. A lógica é preparar trabalhadores para funções que efetivamente possuem demanda, evitando que a capacitação fique distante da realidade do mercado regional.
A Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul também mantém em Água Clara o curso de Tecnologia em Silvicultura, ampliando as possibilidades para quem pretende seguir uma formação de nível superior diretamente relacionada ao setor que cresce na região.
Outra iniciativa ocorreu por meio da MS Florestal, com um programa destinado à preparação de operadores e profissionais de manutenção. Nesse modelo, os participantes iniciavam a formação já contratados pelo regime da CLT e por prazo indeterminado, combinando aprendizado teórico e experiência prática.
A prioridade estava voltada principalmente para moradores de Água Clara e municípios próximos, reforçando a tentativa de preparar a população regional para as vagas abertas pela expansão da atividade.
O gestor da região Costa Leste do SENAI, Rodrigo Bastos, aponta Água Clara como uma cidade de localização estratégica e com uma base florestal consolidada, além de atividades ligadas à agricultura e logística. Segundo ele, a formação profissional vem sendo planejada em conjunto com as empresas para aproximar os cursos das necessidades dos empreendimentos.
Entre as principais demandas identificadas estão justamente os profissionais de operação e manutenção florestal. Existem oportunidades para operadores de máquinas utilizadas na colheita e transporte interno da madeira, como Harvester e Forwarder, além de mecânicos especializados na manutenção desses equipamentos.
São funções que exigem preparação específica. Diferentemente de atividades mais simples de entrada, operar máquinas florestais de grande porte envolve treinamento, conhecimento dos equipamentos, atenção às normas de segurança e capacidade para trabalhar em operações altamente mecanizadas.
A manutenção possui importância semelhante. Uma máquina parada pode comprometer diferentes etapas da operação e gerar prejuízos. Por isso, mecânicos, eletricistas e profissionais capazes de identificar problemas e executar reparos passaram a ter espaço importante dentro da cadeia.
A aproximação entre empresas e instituições de ensino busca justamente evitar uma situação comum em regiões que recebem grandes investimentos: a existência de vagas sem trabalhadores locais com qualificação suficiente para preenchê-las.
Quando isso acontece, as empresas acabam buscando profissionais em outras cidades ou estados. Ao mesmo tempo, moradores locais podem ficar restritos às funções de entrada, geralmente com menores exigências de qualificação e possibilidades mais limitadas de crescimento profissional.
Outro problema está relacionado à escolaridade. Para uma parcela dos trabalhadores, o caminho até a formação técnica precisa começar pela conclusão da educação básica.
Em 2025, 37 pessoas ligadas ao viveiro de Água Clara participaram de um programa de Educação de Jovens e Adultos destinado à conclusão dos ensinos fundamental ou médio. A formação ocorreu dentro do próprio ambiente de trabalho, facilitando o acesso dos participantes às aulas.
A situação mostra que o crescimento econômico também encontra problemas antigos. Existem trabalhadores interessados em aproveitar as novas oportunidades, mas que ainda precisam concluir etapas básicas de escolarização para avançar profissionalmente.
Na avaliação apresentada por Riedel, a resposta precisa envolver diferentes níveis de formação, começando pela recuperação da escolaridade e passando pela qualificação inicial, ensino técnico, formação superior e atualização profissional.
Essa preparação contínua ganha importância porque o setor passa por mudanças tecnológicas frequentes. Equipamentos modernos, sistemas de controle, mecanização e novas formas de gestão exigem que trabalhadores atualizem conhecimentos ao longo da carreira.
As oportunidades também começam a alcançar diferentes grupos da população. Mulheres encontram espaço em viveiros, laboratórios, controle de qualidade, administração, gestão e operação de máquinas, áreas que podem ampliar a participação feminina em uma atividade historicamente associada ao trabalho masculino no campo.
A expansão florestal, porém, não provoca mudanças somente no emprego. O crescimento das áreas plantadas modifica a paisagem e aumenta a circulação de máquinas e caminhões nas estradas urbanas e rurais.
Esse movimento exige atenção à infraestrutura dos municípios. Rodovias e estradas utilizadas para o transporte da madeira precisam suportar aumento considerável de veículos pesados, ao mesmo tempo em que continuam atendendo moradores, produtores rurais e outras atividades econômicas.
A manutenção das estradas passa a ser uma necessidade permanente. Buracos, poeira, desgaste do pavimento e aumento do tráfego podem afetar diretamente a população que utiliza essas vias diariamente.
A prevenção de incêndios também ganha importância. Grandes áreas de florestas plantadas exigem monitoramento, equipes preparadas e ações preventivas principalmente durante os períodos mais secos, quando o risco de propagação do fogo aumenta.
O crescimento precisa ainda conviver com outras atividades já existentes. Pecuária, agricultura, propriedades familiares, áreas de preservação, nascentes e comunidades rurais fazem parte dos mesmos territórios onde a silvicultura está avançando.
Por isso, os impactos econômicos precisam ser acompanhados dos efeitos sociais e ambientais. O aumento da produção e da geração de empregos representa apenas uma parte das mudanças provocadas pela expansão da cadeia.
Na avaliação de Riedel, a economia florestal será mais sustentável quando os resultados econômicos forem analisados juntamente com as consequências ambientais e sociais. A posição defendida pelo governador coloca infraestrutura, proteção ambiental, qualificação e emprego dentro de uma mesma estratégia para o desenvolvimento regional.
O Vale da Celulose foi criado justamente com a proposta de reunir municípios que possuem relação direta com essa transformação. Além de Água Clara e Santa Rita do Pardo, fazem parte da região Aparecida do Taboado, Bataguassu, Brasilândia, Cassilândia, Inocência, Nova Alvorada do Sul, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo, Selvíria e Três Lagoas.
A dimensão econômica do setor já ultrapassa os limites das fábricas. A cadeia envolve fornecedores, empresas de transporte, oficinas, restaurantes, comércio, hotéis, postos de combustíveis, prestadores de serviços e trabalhadores de diferentes áreas.
Em municípios menores, esse movimento pode provocar mudanças rápidas. A chegada de trabalhadores aumenta a procura por moradia, alimentação e serviços, enquanto empresas locais passam a atender novas demandas.
Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado pode pressionar infraestrutura, saúde, educação, trânsito, habitação e outros serviços públicos. O desafio para as administrações municipais e estadual é acompanhar a velocidade das transformações para evitar que o crescimento econômico aconteça sem a estrutura necessária para atender a população.
Água Clara e Santa Rita do Pardo mostram justamente uma etapa anterior à chegada das grandes plantas industriais. A transformação começa na floresta e já pode ser percebida nos processos seletivos, cursos profissionalizantes, novas funções e procura por trabalhadores especializados.
Para Rodrigo Bastos, a expectativa é ampliar a presença dos próprios moradores nas vagas criadas pela expansão. A formação profissional aparece como instrumento para permitir que trabalhadores da região acompanhem o crescimento do setor e construam carreiras à medida que novos investimentos avancem.
Riedel também relaciona esse processo à necessidade de reduzir a rotatividade. Na avaliação do governador e candidato à reeleição, não basta abrir processos seletivos em determinados momentos. É necessário criar condições para que trabalhadores consigam permanecer empregados e avançar para funções mais qualificadas.
O resultado dessa transformação será percebido não somente pelo número de vagas anunciadas, mas pela capacidade de transformar contratações em carreiras. Isso envolve trabalhadores que conseguem permanecer no emprego, jovens que encontram profissão perto de casa, mulheres ocupando novas funções e empresas locais participando da movimentação econômica.
A expansão da celulose coloca Água Clara e Santa Rita do Pardo diante de uma oportunidade e, ao mesmo tempo, de uma série de desafios. O crescimento das florestas cria empregos e aumenta a procura por qualificação, mas também exige atenção à escolaridade, infraestrutura, rotatividade, proteção ambiental e capacidade de preparar moradores para funções cada vez mais técnicas.
Da produção da muda ao funcionamento das máquinas, a cadeia florestal cria uma sequência de atividades que começa anos antes da madeira chegar à indústria. Para os moradores desses municípios, a principal medida desse crescimento será a capacidade de transformar uma vaga temporária em emprego estável, a qualificação em melhores salários e o avanço econômico em oportunidades que permaneçam na região.





